re-lacionamento
Frequentar a casa dela, sinal de alerta, perigo a vista
É hora de se despedir dos amigos, das baladas homéricas e das farras intermináveis
Mais o legal é quando mesmo depois de alguns anos de clausura, você acorda ao lado da sua amada e se descobre um felizardo

Esta criança,
não está aí,
é apenas um ângulo,
o ângulo que há-de vir,
e não há ângulos...
Ora este mundo do pai-mãe é precisamente o que tem de desaparecer,
é este mundo duplicado-duplo,
em estado de desunião constante,
com vontade de unificação constante também...
em torno do qual gira todo o sistema deste mundo,
malignamente sustentado pela mais lúgubre organização.
Antonin Artaud
fechadura

Existe uma grande dificuldade em expressar com palavras várias questões do comportamento humano. Deixar para que a arte, com suas sensíveis ilustrações fale do que é tão difícil escrever, é uma boa saída. Uma música e um filme tiveram sacadas incríveis e muito interessantes para pensar várias questões da vida como ela é.
O filme é o nacional de Heitor Dhalia, "O cheiro do ralo”. Suas metáforas são muitos boas e falam de uma questão masculina bem evidente, que é o prazer em ver o corpo feminino. A imagem por si só deste corpo, que estimula prazer e acaba afastando o ator do filme de sentir algo mais em sua vida, traz um sofrimento nem sempre notado pelo homem.
A música "Armadura", do Otto, também trilha este caminho. Com este nome, que é praticamente um trocadilho com arma-dura, o homem com sua pele dura olha pelo buraco da fechadura e diz que não pode ter a tal felicidade. Ou melhor, não pode ver a tal felicidade.
Pensar sobre esse filme e essa música pode nos dar a idéia de que muitos de nossos sentidos perdem seus valores e outros são supervalorizados de maneira enlouquecida, como no caso da visão. Assim, dentre nossos cinco sentidos que aprendemos a diferenciar quando criança, tato, olfato, paladar, audição e visão, apenas esta última é estimulada com mais intensidade por nossa sociedade. Por quê?
sexualidade, um corpo aprisionado.
Os fatores externos que aprisionam o corpo são produzidos por instituições, normas, leis, mecanismos econômicos e toda uma tecnologia política complexa, cuja finalidade é captar, e usar em seu beneficio a sexualidade individual e coletiva.
Para o crescimento do mercado capitalista é importante produzir corpos economicamente úteis, para que assim seja, eles devem se tornar e se constituir como seus próprios vigias, adestrando e lhes inculcando hábitos primários desde a infância. Quanto mais simples estes gestos e hábitos, mais fundamentais, mais determinantes.
A civilização significa disciplina, e por sua vez implica controle dos impulsos interiores, controle este que para ser eficaz, tem de ser interno. Quem sabe a psicologia faça um caminho inverso a esse, libertando as pessoas.
liberda - de - vir

Esse programa funciona como um dispositivo da sociedade de controle, mostra o objetivo do jogo que é formar os atores adequados, docilizados, como requer uma boa personalidade capitalista e tal como são seus alunos-telespectadores.
Também esta presentes essa função nas novelas, nos filmes e nos noticiários que mostram esse modo de viver tão demonstrado como desejável, verdadeiro e via única de sucesso desse mundo que demanda que sejamos como dita a burguesia. Um mundo que reconhecemos ser falso, mas que nada fazemos para mudar, talvez porque falte atitude.
Deveríamos recusar essa sociedade da vigilância: que observa, controla, espiona, registra e acompanha cada um de nossos movimentos. Mesmo se precisarmos por algum momento fechar os olhos ou colocar uma máscara para esconder nossas identidades, porque assim recuperamos o poder de nossos atos ou porque caracterizados nós sentimos segurança de uma forma engraçada e nos tornamos visíveis.
É uma pena que as pessoas não podem ver todo esse controle e sair as ruas reivindicando: EU NÃO QUERO COMPRAR COMO SOU!
idade da terra (1980)
Esse filme estaria para o cinema talvez como um quadro de Picasso. Os críticos estão querendo uma pintura acadêmica, quando já estou dando uma pintura do futuro.
Na criação artística o maior empecilho é o medo. Os autores que criaram grandes obras na América Latina venceram o medo para não sucumbir ao terrorismo do complexo de inferioridade. Eu, inclusive, rompi este complexo no berro.
Eu não tenho medo de criar, se tiver engenho e arte vou em frente. É necessário não ser babaca, pois a babaquice é o maior inimigo do artista.
Arnaldo Carrilho me disse uma vez diante das ruínas de Pompéia (era um domingo entre janeiro e março de 1965) que Simon Bolívar subiu no Vesúvio e de lá meditou sobre a América Latina: daí partiu para sua ação política. Verdade ou mentira quero partir do vulcão".
Glauber Rocha
fuga

homofobia

Um dos motivos da discriminação, seja ela de raça, classe social ou sexo, é a possibilidade de criar um jogo dominado x dominador. É um jogo de forças, onde um dos lados leva mais vantagem que o outro e tem como objetivo capturar e exercer controle sobre as vidas.
É muita ingenuidade pensar que a sexualidade faz sentido apenas no corpo (biológico) e que tem valor unicamente no sentido da reprodução. A sexualidade tem a ver tanto com nossas crenças, ideologias e imaginações, quanto com nosso corpo físico. E é através de nossa história que aprendemos a sentir prazer pelas coisas, e onde realmente compreenderemos a sexualidade.
Já não faz mais sentido dizer que existe o “normal”, que ele é o heterossexual e ainda que todas as pessoas independentes de seus desejos devam segui-lo docilmente, felizes ou não com esta obrigação. Aprender a respeitar as diferenças já é uma questão fundamental de nossa sociedade moderna, que a cada dia está ainda mais diversificada.
mulher x boneca

Vinculada a imagem desses corpos perfeitos temos a felicidade eterna. A indústria da publicidade utiliza esse recurso para divulgar seu produto, e para que ele seja comprado com a promessa de que você leve junto a felicidade que te falta nos dias de hoje.
É estranho pensar que o importante é o formato externo da pessoa, que o homem vai escolher a mulher com determinadas curvas e cores, do mesmo modo como escolheria um carro. Apesar de que o carro ele não compra só pela lataria bonita, mas sim por um conjunto de qualidades do veículo.
Uma mulher e um carro, péssima comparação. Uma máquina comparada a um ser humano!
Dizer mulher e boneca seria melhor, pois cortar o corpo, costurar, por um enchimento, tirar um excesso, esticar daqui, aplicar algo ali, pode permitir uma comparação assim, afinal isso lembra a fabricação de uma boneca de pano.
Sim, é uma provocação dizer essas palavras! Pra pensarmos quanto sofrimento elas ainda precisam passar, quantas lipoaspirações, implantes de silicone, e outras coisas elas ainda terão que fazer, para alcançar uma ilusão totalmente inventada por nós mesmos?






