fechadura


Obrigado por bater a porta, bata em todo lugar.


Existe uma grande dificuldade em expressar com palavras várias questões do comportamento humano. Deixar para que a arte, com suas sensíveis ilustrações fale do que é tão difícil escrever, é uma boa saída. Uma música e um filme tiveram sacadas incríveis e muito interessantes para pensar várias questões da vida como ela é.

O filme é o nacional de Heitor Dhalia, "O cheiro do ralo”. Suas metáforas são muitos boas e falam de uma questão masculina bem evidente, que é o prazer em ver o corpo feminino. A imagem por si só deste corpo, que estimula prazer e acaba afastando o ator do filme de sentir algo mais em sua vida, traz um sofrimento nem sempre notado pelo homem.

A música "Armadura", do Otto, também trilha este caminho. Com este nome, que é praticamente um trocadilho com arma-dura, o homem com sua pele dura olha pelo buraco da fechadura e diz que não pode ter a tal felicidade. Ou melhor, não pode ver a tal felicidade.

Pensar sobre esse filme e essa música pode nos dar a idéia de que muitos de nossos sentidos perdem seus valores e outros são supervalorizados de maneira enlouquecida, como no caso da visão. Assim, dentre nossos cinco sentidos que aprendemos a diferenciar quando criança, tato, olfato, paladar, audição e visão, apenas esta última é estimulada com mais intensidade por nossa sociedade. Por quê?

jurisdição

Da pele para dentro começa sua exclusiva escolha,
você elege o que pode cruzar ou não.

sexualidade, um corpo aprisionado.


... este corpo preso, que vai além do que se vê, do que se toca e do que se corta .




A sexualidade vem ao longo dos anos sendo atravessada por uma cultura dominante. Podemos dizer que as transformações ocorridas desde os séculos XVII e XVIII são resultados de uma ideologia que nos é imposta pelo sistema capitalista que aprisiona nossos corpos, levando à repressão de desejos sexuais.


Os fatores externos que aprisionam o corpo são produzidos por instituições, normas, leis, mecanismos econômicos e toda uma tecnologia política complexa, cuja finalidade é captar, e usar em seu beneficio a sexualidade individual e coletiva.


Para o crescimento do mercado capitalista é importante produzir corpos economicamente úteis, para que assim seja, eles devem se tornar e se constituir como seus próprios vigias, adestrando e lhes inculcando hábitos primários desde a infância. Quanto mais simples estes gestos e hábitos, mais fundamentais, mais determinantes.


A civilização significa disciplina, e por sua vez implica controle dos impulsos interiores, controle este que para ser eficaz, tem de ser interno. Quem sabe a psicologia faça um caminho inverso a esse, libertando as pessoas.

liberda - de - vir



Nossa vida é cada dia mais associada a mídia, que mostra como ela deve ser através de espetáculos tele transmitidos, onde o cidadão deve limitar-se apenas a assisti-los. Podemos pensar isso de uma maneira interessante através do Grande Irmão (tradução Big Brother), que é o espaço privilegiado no qual a mídia assume hoje sua função educativa.


Esse programa funciona como um dispositivo da sociedade de controle, mostra o objetivo do jogo que é formar os atores adequados, docilizados, como requer uma boa personalidade capitalista e tal como são seus alunos-telespectadores.


Também esta presentes essa função nas novelas, nos filmes e nos noticiários que mostram esse modo de viver tão demonstrado como desejável, verdadeiro e via única de sucesso desse mundo que demanda que sejamos como dita a burguesia. Um mundo que reconhecemos ser falso, mas que nada fazemos para mudar, talvez porque falte atitude.


Deveríamos recusar essa sociedade da vigilância: que observa, controla, espiona, registra e acompanha cada um de nossos movimentos. Mesmo se precisarmos por algum momento fechar os olhos ou colocar uma máscara para esconder nossas identidades, porque assim recuperamos o poder de nossos atos ou porque caracterizados nós sentimos segurança de uma forma engraçada e nos tornamos visíveis.


É uma pena que as pessoas não podem ver todo esse controle e sair as ruas reivindicando: EU NÃO QUERO COMPRAR COMO SOU!

idade da terra (1980)

"Trata-se de um filme que joga no futuro do Brasil, por meio da arte nova, como se fosse Villa-Lobos, Portinari, Di Cavalcanti ou Picasso. O filme oferece uma sinfonia de sons e imagens ou uma anti-sinfonia que coloca os problemas fundamentais de fundo. A colocação do filme é uma só: é o meu retrato junto ao retrato do Brasil.

Esse filme estaria para o cinema talvez como um quadro de Picasso. Os críticos estão querendo uma pintura acadêmica, quando já estou dando uma pintura do futuro.

Na criação artística o maior empecilho é o medo. Os autores que criaram grandes obras na América Latina venceram o medo para não sucumbir ao terrorismo do complexo de inferioridade. Eu, inclusive, rompi este complexo no berro.

Eu não tenho medo de criar, se tiver engenho e arte vou em frente. É necessário não ser babaca, pois a babaquice é o maior inimigo do artista.

Arnaldo Carrilho me disse uma vez diante das ruínas de Pompéia (era um domingo entre janeiro e março de 1965) que Simon Bolívar subiu no Vesúvio e de lá meditou sobre a América Latina: daí partiu para sua ação política. Verdade ou mentira quero partir do vulcão".

Glauber Rocha

fuga


"Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade.
Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade." (Foucault)