Resumo
Neste trabalho partimos da idéia de que a família, quando deparada com uma situação nova como o adoecimento mental de um de seus membros, procura respostas e orientações tanto com especialistas como também na religião, ou no senso comum, para entender o que se passa. Desta maneira, acreditamos na importância de investigarmos em quais idéias a família se apóia para entender o transtorno mental. Sendo assim, esta pesquisa teve como objeto de estudo as famílias primárias de origem de indivíduos portadores de transtornos mentais e seu objetivo foi verificar qual é o conceito que estas famílias têm sobre este transtorno, através do questionamento de um dos familiares que acompanhavam o portador. Os dados foram colhidos através de entrevistas semidirigidas, realizadas mediante a autorização prévia dos participantes. Entrevistamos doze familiares de origem primária de indivíduos que tiveram um transtorno mental diagnosticado, sendo um representante por família de origem. Estes eram cadastrados e freqüentavam a Associação de Familiares, Amigos e Doentes Mentais (A.F.D.M.) de Presidente Prudente-SP. Os dados colhidos nas entrevistas foram analisados de forma quantiqualitativa, de acordo com a orientação teórica sócio-histórica. As informações foram organizadas em “núcleos de significações do discurso”, processo que consiste basicamente na busca de temas, conteúdos e questões centrais apresentados pelos indivíduos, articulando-os com o processo histórico por eles vividos.
Com tais dados concluímos que os familiares entrevistados não apresentaram um conceito subjetivo em relação ao entendimento sobre o transtorno mental e sim uma reprodução de vários conceitos.
APRESENTAÇÃO
A idéia de organizarmos este projeto surgiu ao participarmos de uma atividade de extensão realizada em um hospital psiquiátrico, que atende pacientes por convênio com o Sistema Único de Saúde. Nesta instituição são realizados grupos de apoio aos familiares de indivíduos portadores de transtorno mental, que podem ser freqüentados por pessoas de ambos os sexos e de diversas idades. Percebemos, que há uma grande resistência por parte dos familiares para participarem destes grupos. A partir daí levantamos a hipótese que este fato se deve a diversos fatores, entre os quais esta a forma como a família dos indivíduos em tratamento conceitua o transtorno mental, e por esta razão decidimos realizar a pesquisa.
ALGUNS ASPECTOS HISTÓRICOS DOS CONCEITOS DE DOENÇA E CURA
De acordo com Ramos (1984 ), a nossa forma de ver a saúde a doença e a forma de lidar com elas, são influenciadas pelos muitos mitos e modelos que moldam nossa percepção do mundo e dos fenômenos desde a antiguidade. Estes modelos foram criados na procura do significante da vida e através deles passamos a ter uma compreensão mais racional do mundo que nos cerca. Para podermos compreender como isso ocorreu durante os milhares de anos vamos fazer uma breve retomada da historia dos conceitos de doença e cura.
Para Ramos(op. cit.), na era primitiva os homens eram subjugados pelo poder das forças da natureza, as quais sua mente não conseguia entender. Dessa forma Igualou-se aos poderes divinos, tornando o homem e a natureza um só elemento. Neste sentido desenvolveram métodos de observação da natureza que por fim acabaram dando origem a uma medicina que tinha como base um respeito espiritual, e busca de um significado maior com relação à doença e saúde. Neste sentido a doença era vista como uma conseqüência da violação de um tabu ou de uma ofensa aos deuses, no entanto a cura estava no restabelecimento da ligação do homem com o divino através de arrependimentos e sacrifícios. Quem possibilitava isso eram os curadores, que eram os mediadores entre as forças cósmicas e o doente, e por ser conhecedores das propriedades medicinais das ervas, da musica e da terapia verbal, eles respondiam a duas necessidades básicas do homem: busca espiritual e saúde.
Já na era grega seus médicos foram os primeiros a separarem a categoria espiritual da material e a desenvolver uma abordagem cientifica tal como usamos hoje: observação, análise, dedução e síntese. Para estes médicos o mundo e o cosmos eram conhecíveis e a ordem prevalecia na multiplicidade das coisas e na unidade da diversidade mutável. No século V a.C surge Hipócrates com suas observações que deram início à medicina moderna, uma vez que muitos de seus métodos se tornaram procedimentos padrão na medicina e na psicologia, e são usados ainda hoje.
A partir do renascimento (séc XVII) surge o modelo cartesiano cuja ênfase era que a matéria é uma realidade separada da atividade da mente, ou seja, na distinção entre corpo e mente. No entanto não havia dúvidas de que a origem do espírito e da matéria estivesse num único campo (divino), porém seus métodos e sua filosofia foram interpretados pelos seus contemporâneos e sucessores de uma forma que acabaram por estigmatizá-lo como o criador do dualismo mente – corpo, tanto no sentido positivo, de promover um pensamento científico, como no negativo, mais atual, de dificultar a compreensão mais global do homem.
No século XIX a medicina volta a seguir um modelo romântico que ia de encontro com o dualismo, pois, tinham a visão do homem global e não uma visão de partícula. A doença era vista como um desequilíbrio não-natural, causada pela interação de fatores biológicos, morais, psicológicos e espirituais. A relação médico - paciente era a parte principal, uma vez que o médico traçava o tratamento a partir da observação clinica feita do seu paciente, observação essa que levava em conta o individuo como um todo.
No entanto no final do século XIX o modelo romântico foi perdendo forças para o modelo biomédico, que caracterizava-se pelo reducionismo, determinismo e universalismo devido às criticas recebidas. Dessa forma a visão médica mudou o seu enfoque, deixou o individuo como um todo para dar ênfase na patologia. A doença portanto passou a ser definida como um desvio do normal, e seus aspectos foram tornando-se universais, estabelecendo assim regras de normalidades. Os fatores não – materiais que não eram suscetíveis de serem medidos facilmente em laboratório, não eram levados em conta. Devido a isso o fator psicológico deixou de ser importante para a medicina.
Em 1919 ocorreu a primeira aparição do termo psicossomática, utilizado por Helen Dunbar em seu livro “Mudanças Emocionais e Biológicas”. Esta autora foi a idealizadora e a fundadora da Revista Psychosomatic Medicine, (1939), na qual seus editores definem o campo da medicina psicossomática como a inter-relação dos aspectos psicológicos e fisiológicos das funções do “corpo”.
Houve também uma importante contribuição para a questão da psicossomática com a descoberta de Selye sobre a síndrome geral da adaptação, ou seja, síndrome do stress. Ele a definiu como a soma de todos os efeitos específicos dos fatores (atividade normal, produtores de doenças, drogas entre outros) que podem agir sobre o corpo. “O stress é uma condição, um estado, que embora como tal seja imponderável, se manifesta através de mudanças mensuráveis no órgão do corpo. Ele é o resultado da luta para a autopreservação das partes dentro do todo” (SELYE, 1956 apud RAMOS 1984)
E como último modelo médico temos o modelo holístico, palavra que em grego significa “todo”. Este termo foi usado primeiramente em 1926, por Smuts, no livro Holism and Evolution, para designar o conceito de que o universo seria um conjunto em constante formação e que haveria uma força vital responsável pela formação de conjuntos de diferentes níveis; ideológico, biológico e psicológico. Neste modelo a idéia de normal e universal é questionável, e a idéia de sistema é um recorte até certo ponto arbitrário e que não tem uma verdade absoluta.
Da mesma forma como os conceitos de doença e cura sofreram alterações durante o transcorrer dos anos, o entendimento sobre a loucura não foi diferente, como abordaremos à seguir.
UM BREVE ESTUDO SOBRE A HISTÓRIA DA LOUCURA
De acordo com Collemam (1969 ), desde a antiguidade acreditava-se que os “loucos” eram possuídos por demônios, seja por castigo divino ou por fraqueza de espírito. Estaria o “louco” possesso de bons ou maus espíritos, dependendo de seus sintomas. Se os comportamentos parecessem ter um sentido religioso ou místico, pensava-se geralmente que estava tomado por um bom espírito ou por Deus. Porém comportava-se de maneira adversa a esta e portanto era considerado possuído por espíritos malignos. O autor ilustra bem essa questão com uma passagem da bíblia onde a palavra é atribuída a Moisés: “ O senhor os castigará com a loucura...”, desta forma a loucura estaria relacionada ao afastamento da proteção divina.
Em conseqüência deste pensamento tratava-se da loucura com exorcismo, que incluía várias técnicas criadas pra expelir o espírito mau do corpo da pessoa atormentada e nos casos extremos aplicava-se açoites, fome e outras medidas severas.
Com Hipócrates (460-357 a.C.), médico grego, começou-se a pensar na loucura como algo não relacionado aos deuses, este passa a afirmar que as perturbações mentais tinham causas naturais e exigiam tratamento como outras doenças. Ele classificou as doenças psiquiátricas, dando-lhes descrições clinicas. Este trabalho de Hipócrates, mais científico, foi continuado por alguns médicos gregos e romanos.
Porém, com o fim da antiguidade, a Idade média é marcada como Idade das Trevas para a história da psiquiatria. Com a morte de Galeno no ano 200, as contribuições iniciadas por Hipócrates perderam-se na confusão das superstições populares. Assim, durante a Idade média somente entre os Árabes sobreviviam ainda alguns aspectos mais científicos nesta área.
Desta forma, nesta época, voltam a tratar dos doentes mentais como na antiguidade, através da religião. Durante a última parte do século XV as crenças referentes à posse pelo demônio passaram a ser classificadas de duas formas: (1) as posses em que a vítima era apanhada involuntariamente pelo demônio; (2) as posses em que o indivíduo realmente fazia uma aliança com o demônio.
Somente no final da Idade Média, no período conhecido como renascimento (séc. XVII), há então o ressurgimento da discussão cientifica na Europa. Já no inicio do século XVI Paracelso (1490-1541) coloca que a “mania de dança” não era caso de possessão e sim de doença. Depois dele vieram outros homens dos domínios da religião, física, medicina e da filosofia,que passaram a estudar tais manifestações. Em 1547, Henrique VIII transforma o mosteiro de Santa Maria de Belém, situado em Londres, no primeiro hospital de doenças mentais, que tornou-se conhecido pelas práticas deploráveis ali vigentes. Nos Estados Unidos a realidade não era muito diferente.
Apesar de todos os avanços no entendimento da doença mental, os primeiros asilos criados não eram melhores que os campos de concentração em que os infelizes internados viviam e morriam nas mais incríveis sujeiras e crueldades.
No ano de 1792 inicia-se algumas mudanças, com Philippe Phinel (1745-1826) sendo colocado como diretor de um hospital de insanos em Paris. Nesse cargo Phinel recebe a permissão de tirar as correntes de alguns internados, assim teve um grande êxito, obtendo resultados quase milagrosos e provando que os doentes mentais deveriam ser tratados com bondade e consideração. Tais êxitos nestes experimentos refletiram em todo o mundo civilizado.
A partir do inicio do século XVIII, aumentou rapidamente os conhecimentos científicos em relação à anatomia, fisiologia, química, neurologia e medicina geral , sendo um grande progresso para o entendimento de diversas patologias.
Assim como evoluíram os conceitos de doença,cura e loucura, as formas de tratamento das patologias também foram se modificando. Uma das mudanças mais importantes está relacionada à inserção da família neste processo, família esta que sofreu algumas transformações em sua dinâmica estrutural no decorrer da história.
A MUDANÇA NA ESTRUTURA FAMILIAR E SUA INSERÇÃO NOS SERVIÇOS DE SAÚDE
De acordo com Brown (1995), os serviços de saúde disponíveis para pessoas portadoras de doenças graves e terminais buscam compartilhar a responsabilidade dos cuidados prestados com a família primária, deixando o compromisso com o tratamento de ser somente dos hospitais e especialistas. Porém, com o diagnóstico de uma doença mental num dos seus membros, sabemos que a família tende a desestabilizar-se, devido à ocorrência de um grande stress no sistema familiar. Para Brown (op.cit.), a probabilidade de disfunção neste sistema aumenta de acordo com vários fatores, entre os quais se destacam: (1) as experiências passadas em relação a perdas, ou seja, a forma como a família vivenciou e elaborou estes eventos; (2) a idade em que o membro adoeceu, sendo que a faixa etária dos vinte anos parece provocar o maior impacto; (3) o significado e importância deste membro para a homeostase do sistema familiar; (4) a cultura em que a família está inserida, que pode favorecer ou não o enfrentamento das tragédias da vida; (5) e o nível social, uma vez que se a família tem condições financeiras de cuidar do seu membro tende a não se desestabilizar tanto, já que o cuidado direto com o familiar doente parece trazer menos conseqüências emocionais para o grupo.
Atualmente, nas sociedades ocidentais, as ideologias neoliberais têm se disseminado, pregando a progressiva transição da responsabilidade sobre o indivíduo do Estado para a família. Em virtude disso, os pais passaram a ter uma maior responsabilidade pela educação geral de seus filhos, isto é, educação escolar, emocional, sexual, visando a independência deste indivíduo. Entretanto, por diversas razões, muitos grupos familiares não dispõem de recursos (sociais, econômicos, emocionais) para assumir as diversas funções que lhes são delegadas, as quais acabam por ser desempenhadas de modo precário.
Para compreendermos como se iniciou o processo de mudança no conceito de família e conseqüentemente a responsabilização das famílias dos indivíduos portadores de transtorno mental pelo cuidado destes, será necessário nos remetermos a alguns pontos do processo histórico da formação estrutural da família moderna.
De acordo com Ariés (1981), na época medieval os indivíduos viviam em grandes casarões que abrigavam várias pessoas da mesma família, além de empregados, agregados e protegidos. Neste período não havia noção de privacidade e intimidade, sendo a casa também um local de trabalho. Utensílios, objetos e alimentos eram fabricados na própria casa, estando assim todos os objetivos deste grupo voltados para o seu crescimento.
Segundo Melman (2001), nesta mesma época a família não era a responsável direta pela educação de seus filhos. A educação, tanto nas famílias pobres como nas mais abastadas, era dada por outras famílias; estas trocavam seus filhos para que fossem educados, numa espécie de “estágio” onde o aprendiz tinha a função de servir adequadamente o chefe da outra família. Áries (1981) diz que a aprendizagem era confundida com serviço doméstico e que mesmo os clérigos, que iam às escolas, encontravam lá este mesmo sistema educacional. Este autor coloca também que a educação sexual iniciava-se muito cedo, pois as crianças eram estimuladas pelas amas e as pessoas se divertiam em observar as primeiras ereções de um menino. Havia uma ausência de reservas diante das crianças, sendo que os adultos falavam, praticavam e as associavam a brincadeiras com temas sexuais. A educação repressiva iniciava-se após os sete anos de idade, quando se começava então a ensinar modos e linguagem “decentes”. Até hoje, nas sociedades mulçumanas que se mantiveram longe do progresso científico e de reforma da moral, encontra-se o hábito de brincar com o sexo da criança.
No período medieval, portanto, o sentimento de infância não existia. Quando a criança conseguia uma certa liberdade de viver sem necessitar de muitos cuidados da mãe ou da ama, já era inserida no mundo adulto. A idéia de família, então, restringia-se a uma questão moral e social, voltada para a transmissão de nome e bens. Com a transição da Idade Medieval para Idade Moderna, houve a quebra deste paradigma, iniciando-se uma lenta construção de um novo “sentimento de família”. Surge assim um novo conceito em relação a esta instituição: as casas adquiriram um caráter privativo familiar e a afeição entre pais e filhos encontrou um diferente contexto (MELMAM, 2001).
Com o início destas mudanças, a escola deixou de ser somente para os clérigos, tornando-se um instrumento de iniciação social para crianças de várias classes sociais. Neste sentido, o modo de ensino reformulou-se e, como parte de uma evolução, percebeu-se a necessidade de separar o “mundo do jovem” do “mundo do adulto”. Com o tempo “o mundo adulto” passou a ser visto como inadequado para o bom desenvolvimento da criança. A partir do séc XVII surge uma repugnância cada vez maior em relação a esta mistura, iniciando-se a separação das crianças menores, visando proteger os estudantes jovens da vida leiga. Assim, a escola passou a isolar cada vez mais as crianças, num primeiro momento com o objetivo de “adestrá-las” com uma disciplina autoritária.
Este conceito moderno de família instituiu um novo modo de convívio, que distingue o “mundo feminino”, da mulher do lar, da esposa dedicada, e o “mundo masculino”, do homem que sustenta a casa. Na definição sociológica de estrutura familiar esta é uma das características da família nuclear moderna (BERENSTEIN, 1988). Segundo Moura e Araújo (2004), somente no séc XIX a mulher passou a ser mais valorizada socialmente ocupando outro lugar na questão da maternidade, passando a criança a ter um lugar privilegiado na atenção materna. De acordo com Roudinesco (2003), o novo papel da mulher, a mãe idealizada, originou uma nova concepção de feminilidade. A imagem da esposa e mãe reforçou um modelo de dois sexos das atividades e dos sentimentos. Associou-se maternidade a feminilidade como sendo atributo da personalidade, atributos impregnados de concepções bastante firmes a respeito do sexo feminino. A maior expectativa que ainda hoje se tem em relação a mulher é que seja uma ótima mãe, e em todos os aspectos a culpa materna nunca foi tão grande como no nosso século.
Dentro deste novo contexto de estrutura familiar, as famílias passaram a buscar todo tipo de auxílio que lhes fosse útil para desempenhar de forma positiva as funções educativas que agora lhes eram impostas. A medicina apresentou-se como uma das alternativas para tal auxílio. A partir do séc XVII, a medicina passou a tratar de assuntos tais como a sexualidade, sob um aspecto físico, porém com um discurso moralista. Este discurso interferiu, por conseqüência, nos aspectos sociais, reforçando uniões entre homens e mulheres de idades próximas, e estimulando relações afetuosas entre pais e filhos.
Trilhando os mesmos caminhos moralistas da medicina, surge a psiquiatria moral que, de um modo geral, iniciou a regulamentação dos comportamentos dentro da relação familiar. Neste sentido passou a instituir a necessidade da separação do portador de doença mental do ambiente familiar, pois se pensava que a família influenciava de forma negativa na doença mental. Este pensamento pode se confirmar através do relato de Esquirol, psiquiatra da época: “Um grande número de casos de pacientes que permaneciam clinicamente bem quando estavam internados, bastando o retorno ao núcleo familiar, para que o quadro se agravasse’’ (BERMAM, 1978, apud MELMAM 2001,p 49).
Com enfoque diferenciado da medicina, da psiquiatria e da religião, a psicologia pouco a pouco passou a ocupar o lugar dos padres e médicos em relação à orientação familiar. A psicologia e particularmente a psicanálise nasceram e confirmaram-se em um ambiente familiar, tendo como objeto de estudo tanto o inconsciente individual quanto posteriormente o inconsciente deste grupo. De acordo com Berenstein (1988,p.62), “Uma família tem, com freqüência, funcionamentos cuja significação não está no campo da consciência dos integrantes do grupo familiar, embora regule e dê sentido às relações entre eles".
A psicologia tem, atualmente, uma ampla aceitação social, e adota muitas vezes o pressuposto de que o grupo familiar tem o desejo de ajudar o membro portador da doença mental. Esta postura, contudo, deve ser relativizada em muitas situações, pois nem sempre o grupo familiar tem condições de cuidar devidamente de seu membro. Para Bortoleto (2004, p. 10), “a família pode tanto colaborar para o sucesso de um tratamento, quanto para seu fracasso, mesmo que isso ocorra inadvertidamente. Mas, de qualquer forma, é notório o papel muitas vezes decisivo da família na vida e no tratamento dos pacientes”
No entanto, no Brasil, o reconhecimento de que é necessário garantir os direitos sociais dos indivíduos, acabou por fragmentar as formas de atenção em saúde publica, especialmente a partir da década de 80 (cf. CARVALHO 1995). A família dividiu-se num somatório de necessidades e ganhou identidade muitas vezes apenas através da carência de bens e serviços. Atualmente é possível perceber que cada vez mais as políticas sociais públicas favorecem o trabalho com famílias, tentando reintegrar as intervenções propostas, sem fragmentar as necessidades do grupo , mas buscando atingi-lo de modo global. Esta parece ser a intervenção de propostas como o “Programa Bolsa Família” (BRASIL, 2003), programa de complementação de renda do governo federal, ou o “Programa de Saúde da Família” (BRASIL, 1997).
Contudo, devido as profundas alterações econômicas que o país atravessou nas ultimas décadas, houveram também mudanças na estrutura familiar. Homens, mulheres e adolescentes passaram a dividir o mercado de trabalho e o homem deixou de ter exclusividade no papel de chefe da família, abrindo este espaço para a mulher. O agrupamento de parentes no mesmo lugar aumentou, como nos faz notar Carvalho, (1995, pg 15): “se observarmos um cortiço ou uma favela em São Paulo, vemos que tais famílias se agrupam no espaço onde a rede de conterrâneos e parentes vivem.”.
Nestes aglomerados de famílias existe um esquema mútuo de dependência, havendo o apoio de todas as horas para diversos tipos de problemas. A falta de privacidade em que vivem é compensada por esta cumplicidade. No entanto, a forma de viver destas famílias propicia um grande desgaste, e colabora para o aumento do índice de maus tratos, pois geralmente, os trabalhos desenvolvidos por elas são manuais, rotineiros, sem qualificação.
Presume-se então que, no trabalho com famílias, a conscientização e apoio sejam de suma importância, mas sabemos que isto não basta. A atenção à família deveria ser algo mais amplo, que suprisse de alguma forma as necessidades básicas do grupo para depois se orientar para as necessidades especificas. Os programas de saúde que tem como foco a família, ou que requisitem sua participação no acompanhamento de um de seus membros, devem sempre levar em conta, portanto, a diversidade de formas de organização que a instituição familiar apresenta na sociedade, e, principalmente as múltiplas necessidades e modos de sentir, conceituar, interpretar e refletir sobre a realidade que decorrem desta diversidade. Assim entendemos que para trabalhar com famílias é necessário compreender profundamente seu papel na constituição psicológica dos indivíduos.
A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA NA CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
De acordo com a teoria psicanalítica, o papel da família para o desenvolvimento saudável do filho é primordial, mas também esse filho vai contribuir para a integração da vida familiar. Num ambiente saudável há uma identificação intíma entre a mãe com seu filho e o pai também assume responsabilidades em relação a este.
A vinda de um filho é oportuna quando os pais já vivenciaram o estágio onde um significa tudo para o outro. A tarefa dessa família não vai ser apenas no sentido de satisfazer impulsos instintivos, mas sim ser continentes aos indivíduo, inclusive na medida em que ele cresce e suas necessidades vão se modificando.
Com o crescimento a tendência do indivíduo é afastar-se da família de origem ganhando maior autonomia, porem é preciso que tenha ficado internalizado neste indivíduo que cresce que os objetos parentais estão conservados e podem recebê-lo quando for necessário, podendo assim transitar da dependência para independência e saber que tem a oportunidade de voltar a dependência quando preciso.
O filho que se desenvolve saudável, como acima fora descrito sucintamente, contribui muito para a situação familiar na medida em que o bebê já apresenta um tendência inata a integração e esta tendência gera efeito integrativo no ambiente externo.
Um filho que cresce e chega a integração neutraliza as idéias assustadoras que provém dos impulsos amorosos, que são elementos destrutivos – inconscientes-, o que gera grande preocupação e culpa que é reparada pelo crescimento da família.
Porém quando um filho não chega a essa integração, ou seja, já nasce com alguma dificuldade, este não poderá contribuir para esta família.
Os impulsos destrutivos existentes na fantasia do casal não serão neutralizados, pelo contrário, o problema no filho vai afirmar os pais que não são capazes de produzir bons frutos; A partir daí não podemos esperar que essa família reaja de uma maneira “normal” já que terá que assumir responsabilidades não natural, assim terá famílias que serão incapazes de suportar uma criança doente. Assim percebemos que o movimento inconsciente que a família faz quando se relaciona influenciará de forma marcante na vida do sujeito. O que fica explicito através da análise dos mitos familiares que são passado pelas gerações.
O mito conta a nossa origem, a origem da humanidade, mesmo que para isso faça uso de uma linguagem atualizada, de forma que por mais antigo que o mito seja, continua a nos comover (GREEN,1980 apud PRADO,1990). “O mito conta uma historia sagrada; ele relata um acontecimento que ocorreu no tempo primordial, o tempo fabuloso dos começos” (ELIADA,1988 apud PRADO, 1990). Ele é sempre um relato de criação, ou seja, nos conta como algo se iniciou, passou a ser. E tem como função primordial ser um modelo de todas às atividades humanas significativas. Sua criação é inconsciente e tem uma construção lógica, pois são organizadas conforme uma lógica inconsciente.
Segundo Prado (1990), o mito não é só uma maneira de se contar a historia mas sugere uma incorporação a ela, tendo um caráter defensivo, pois providencia uma espécie de proteção à existência na medida em que promove um triunfo sobre as angústias, particularmente às de morte. Pelo fato de o mito ser uma forma de explicação do real, ou seja, explica o mundo e o homem, ele é passado através das gerações. Por ser apresentado de uma forma ilógica e irracional acaba por prestar-se a inúmeras interpretações, o que é necessário para a sua vivência, pois, possibilita o fantasiar, o processo de simbolização das fantasias primitivas e a tolerância às diferenças. Devido a essas inúmeras interpretações, a origem do mito acaba se perdendo, mas isto não diminui o seu poder de influência.
A idéia de mito familiar foi introduzida por Ferreire (1963 apud Prado 1990), que dizia que o mito era um sistema de crenças compartilhadas e aceitas de antemão pelos membros da família como se fossem tabus, e tendem a ficar em segredo. Neste sentido, os mitos são mecanismos de homeostase, tendo como função a concordância grupal, fortalecendo os papeis de cada membro. Ainda conforme Ferreira, o mito familiar vem para ajudar a manter o equilíbrio familiar, uma vez que ele tenta compensar as desilusões e resolver as contradições e antinomias (contradições entre dois princípios ou lei) que dizem respeito ao vivido. Neste sentido o ato de crer em um mito desses acaba por abordar as emoções essenciais de uma família, como por exemplo, as de certeza da pertença e do amor de uns pelos outros. Assim, recusá-lo é para os membros da família como recusar a pertença, o amor filial. Em uma visão mais ampla seria questionar os vínculos narcísicos. Deste modo, toda vez que um mito é posto em questionamento por um membro da família, instala-se uma outra instância mítica a qual irá se apropriar da nova situação, desenvolvendo assim um novo mito, uma vez que família nenhuma vive sem seus mitos.
De acordo com Prado (1990), a transmissão do mito familiar é marcada por segredos, por não ditos e por tabus, que correspondem ao que não pode ser pensado e caracteriza-se por discursos complexos nos quais atitudes, comportamentos e mímica dizem algo que as palavras calam. Esta autora nos diz “que a difusão do mito exige dele que ele continue a dizer respeito a cada individuo que faz parte de um grupo, pois o mito permite-lhe reconhecer-lhe enquanto individuo e enquanto membro do grupo”.
Ainda segundo Prado (op cit), pelo fato do mito ser compartilhado pelo grupo, é preciso que cada participante sinta-se tocado por esse mito, ou seja, que lhe diga respeito, pois sua função é de transmitir os códigos, coletivo e individual. A fantasia, como representante psíquico das pulsões, participa do desenvolvimento do indivíduo. Desta forma, acaba por participar das primeiras relações objetais e do conhecimento do mundo externo, sendo filtrado pelo mito familiar.
Prado (1990) através de Isaac (1952) nos diz que a fantasia é uma função primitiva, e tem uma grande contribuição para funções mais elevadas como o pensamento. Ela é real na experiência do sujeito e tem efeitos reais tanto no mundo interno como no mundo externo do desenvolvimento e comportamento corporal do sujeito e, portanto das mentes e corpos de outras pessoas. Neste sentido, em uma família temos um mosaico de fantasia por onde os familiares articulam inconscientemente as ligações entre representações de uns e outros, sendo invadidos por um movimento de ilusão narcísica, o que os permite criar fantasias em uníssono.
Estas fantasias compartilhadas podem promover tanto uma organização quanto uma desorganização familiar, devido a aspectos regressivos e evolutivos, já que a família não deixa de se alterar de acordo com o desenvolvimento de seus membros. (processo de separação e individuação)
Neste sentido, saber qual é o conceito que a família de origem primária de um individuo que recebeu diagnostico de transtorno mental, sobre o mesmo transtorno é de suma importância, já que a forma como esta enfrenta e entende esta problemática influência de forma evidente no desempenho de seu papel enquanto cuidadora.
FORMULAÇÃO DO PROBLEMA
De acordo com estudos já realizados por diversos autores (ARIÉS,1981; BERENSTEIN,1988; COLLEMAM,1969; MELMAN, 2001 RAMOS, 1984), os conceitos de doença,cura e loucura se modificaram com o transcorrer dos anos, com isto a presença da família passa a ser mais solicitada nos períodos de tratamento. Assim, houve também modificações nesta estrutura familiar, que na sociedade contemporânea passa a ter ampla responsabilidade da educação dos filhos, o que caracteriza a família nuclear.
Esta, quando se depara com o adoecimento mental de um de seus membros, procura formas de explicar e conceituar enfermidade, buscando tais explicações tanto com especialistas, como também na religião, ou no senso comum, para entender o que se passa. Além disso, estas respostas serão elaboradas de acordo com as características particulares de cada grupo e com o contexto sócio-econômico e cultural em que a família esta inserida.
Pelo fato da família ter sido cada vez mais solicitada a participar dos cuidados nas enfermidades de seus membros, acreditamos que o entendimento que esta tem sobre transtorno mental será de suma importância para uma maior adesão ou não nas intervenções oferecidas aos familiares pelas equipes de saúde mental. Assim, questionamos: qual é realmente o conceito que a família de origem primária (pais, irmãos, filhos e avós) tem em relação aos transtornos mentais? O que leva a família a fazer o “reconhecimento” da doença mental? A que, a priori, estes familiares atribuem os comportamentos diferentes, desajustados ou bizarros, que um transtorno mental (especialmente aqueles com características psicóticas) pode produzir em seus portadores? Em busca de resposta para tais questões é que queremos realizar esta pesquisa.
JUSTIFICATIVA
Saber qual o conceito a família tem de transtornos mentais é, de suma importância para que a equipe de saúde mental possa realizar orientações e esclarecimentos eficazes aos familiares. Se a família é capaz de compreender com maior clareza e exatidão as necessidades e comportamentos do indivíduo enfermo, poderá desempenhar seu papel de cuidadora de modo mais apropriado e efetivo, o que favorecerá a convivência da família com o membro portador de transtorno mental. Um melhor cuidado e convivência por parte da família podem refletir na diminuição das internações e também, a longo prazo, contribuir para a quebra de estigmas em relação aos transtornos mentais, não só dentro daquela família envolvida com o tratamento mas em toda a sociedade.
OBJETIVOS
Verificar, através do questionamento de um dos familiares que responde pelos cuidados de um indivíduo que recebeu diagnóstico de transtorno mental (com sintomas psicóticos), qual o conceito que este familiar tem sobre o mesmo transtorno.
2. Desenvolvimento
MATERIAIS E MÉTODOS
Esta pesquisa foi realizada na Associação de Familiares, Amigos, e Doentes Mentais de Presidente Prudente-SP (A. F. D. M.). Esta é uma entidade sem fins lucrativos, que tem como objetivo a defesa dos direitos individuais e coletivos dos doentes mentais e o apoio aos familiares. Objetiva também orientá-los através de reuniões, boletins, campanhas elucidativas e promover o acesso destes a advogados, assistentes sociais e médicos. Busca ainda combater toda e qualquer forma de preconceito em relação ao doente mental e seus cuidadores, promovendo assim a reinserção social do indivíduo portador destes transtornos.
As reuniões desta associação ocorrem quinzenalmente aos sábados, às quinze horas. Esse grupo conta, em média com 36 pessoas cadastradas, entre pais ou responsáveis de portadores de transtornos mentais, com idades variadas, e de ambos os sexos. As atividades da A.F.D.M. são coordenadas por um grupo de profissionais como assistente social, artista plástica, médico e psicóloga.
De acordo com as exigências do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL,1996), esta pesquisa passou por uma avaliação no Comitê de Ética em pesquisa da instituição onde foi desenvolvida e somente após aprovação por escrito foi iniciada (anexo 1).
Buscamos então, o contato com as famílias durante sua participação nas atividades da A.F.D.M.. Os critérios de seleção dos sujeitos envolvidos na pesquisa foram: familiares de origem primária (pais, filhos, irmãos ou avós), cadastrados na A.F.D.M. que convivam ou já conviveram com o indivíduo que recebeu diagnóstico de transtorno mental por no mínimo um ano, e que aceitassem voluntariamente contribuir para a pesquisa, mediante assinatura de autorização individual (ANEXO2).
A técnica utilizada para a coleta de dados foi entrevista oral semi-dirigida. De acordo com Ocampo,(1990), é um método de investigação, que consiste em perguntas fechadas as quais podem ser respondidas com poucas palavras, de forma objetiva, e perguntas abertas que devem ser formuladas de maneira ampla e que o entrevistado responde de forma subjetiva. Houve intervenções do entrevistador em situações de bloqueio ou paralisação por conseqüência da angústia, para indagar acerca de “lacunas” nas informações, e até mesmo contradição, ambigüidade e verbalização obscura. Estas intervenções ocorreram com o intuito de obter respostas claras e coerentes às perguntas propostas e para que não se perdesse o foco da pesquisa. Antes de iniciar a entrevista estabeleceu-se um rapport com cada entrevistado, durante o qual foi lido a autorização para a entrevista e explicado os objetivos principais da pesquisa.
Entrevistamos doze familiares, sendo um representante por família de origem primária. Todos os entrevistados eram do sexo feminino, embora essa característica não fosse um requisito da pesquisa e tenha ocorrido espontaneamente. A seguir apresentaremos algumas informações sobre os sujeitos da pesquisa.
Nome fictício Idade Profissão Escolaridade Grau de parentesco
RAFAELA 23 Vendedora Ens. Médio Filha
MARCELA 32 Esteticista Ens. Fund. Inc Irmã
JOANA 51 Serv. Gerais Ens. Fund. Esposa
FABIANA 69 Do lar Ens. Fund. Mãe
MARCIA 66 Do lar Analfabeta Mãe
MICHELE 48 Doméstica Ens. Fund. Irmã
AMANDA 41 Professora Magistério Irmã
RENATA 28 Doméstica Ens. Fund. Irmã
ARLETE 27 Atendente Ens. Médio Irmã
ODETE 35 Do lar Ens. Fund. Inc Irmã
ILMA 51 Doméstica Ens. Médio Irmã
MIRIAN 50 Do lar Ens. Fund. Madrasta
As entrevistas foram compostas por questões pessoais que permitiam a caracterização sócio-econômica dos familiares entrevistados, e perguntas referentes ao conceito que os familiares de origem primária têm em relação ao transtorno mental (ANEXO 3). As entrevistas foram gravadas, utilizando-se de um gravador e fita cassete, transcritas, e identificadas com nomes fictícios.
Após a coleta de dados as informações referentes aos dados pessoais dos entrevistados foram organizadas de modo a delinear um perfil quantiqualitativo da amostra. As análises interpretativas foram realizadas a partir de orientação teórica na abordagem sócio-histórica em psicologia. Organizamos então as idéias gerais dos entrevistados quanto ao conceito de transtorno mental em “núcleos de significações do discurso”. Segundo Aguiar (2001), este processo consiste na busca de temas, conteúdos e questões centrais apresentados pelos indivíduos, articulando-as com o processo histórico para entender como estes transformaram as experiências sociais em processos psicológicos, e conseqüentemente, atribuíram-lhes um sentido próprio. De acordo com Minayo (2000), a formação dos conceitos envolve os aspectos históricos, sendo importante analisá-los e definí-los como historicamente e socialmente estabelecidos e condicionados. Dessa forma, buscamos compreender como os sujeitos de nossa pesquisa organizam o conceito de transtorno mental que é, sem dúvida, ao mesmo tempo histórico e social nessa configuração subjetiva (e portanto psicológica).
3. Resultados
3.1 Apresentação de Resultados
Foram realizadas doze entrevistas, na qual transcrevemos e nomeamos os entrevistados com nomes fictícios. Desses entrevistados, os doze eram do sexo feminino, sete eram irmãs do portador de transtorno mental, duas eram suas mães, uma esposa, uma filha e uma madrasta. Em relação à escolaridade dos participantes, uma declarou ter magistério completo, três declararam ensino médio completo, cinco fundamental completo, dois fundamental incompleto, e. uma era analfabeta.
A religião que predominou entre as entrevistadas foi o cristianismo, sendo dez católicas e duas evangélicas. Com relação à profissão declarada, predominaram as que exigem pouca qualificação, sendo que quatro das entrevistadas exerciam apenas atividades do lar, três eram empregadas domésticas, uma professora, uma executava serviços gerais, uma vendedora, uma atendente, e uma esteticista. A maioria das entrevistadas eram da cidade de Presidente Prudente – SP (onze), e apenas uma da cidade de Taciba – SP. A renda familiar declarada foi de, no máximo, 04 salários mínimos, sendo que uma das participantes se negou a fornecer esta informação.
Dos familiares entrevistados metade deles (seis) convivem com a doença de seu familiar há mais de vinte anos, três convivem entre dez e vinte anos, e três há menos de dez anos. Sete dos participantes convivem atualmente na mesma residência com o portador e cinco deles não estão residindo no mesmo local, atualmente, porém já conviveram por mais de um ano.
O diagnóstico médico que os entrevistados relataram ter recebido seu familiar portador de transtorno mental foi variado, e nem sempre correspondente à nosologia médica: esquizofrenia (quatro), nervoso (dois), distúrbio (um), surto (um), depressão (um), epilepsia (um), mental (um), e problemas psiquiátricos (um). Com relação ao número de internação de seu familiar, os entrevistados relataram um grande número de intercorrências: cinco informaram mais de dez internações psiquiátricas, quatro declararam entre cinco e oito internações, um informou duas internações e dois apenas uma internação.
Após a realização das entrevistas, estas foram transcritas e submetidas a leituras cruzadas por inúmeras vezes pelas pesquisadoras, até que pudessem organizar o discurso dos entrevistados em alguns núcleos de significação do discurso que correspondessem às duas perguntas da pesquisa.
Em relação à primeira questão, que era “O que você entende por transtorno mental?”, os núcleos de significação encontrados foram:
1 – Não entende o que é, onde percebemos nos discursos a falta de compreensão por parte do entrevistado do que é o transtorno mental. Exemplo: “olha, falar que entendo, eu... a gente não entende, a gente quer entender, quer aceitar, mas né, realmente não entende”. (Marcela, 32 anos)
2 – Entende como doença, no qual classificamos aqueles discursos que demonstravam o entendimento do transtorno mental como uma doença. Exemplo: “... é diferente de uma pessoa (que) não está bem emocionalmente entendeu, é uma doença mesmo”.(Marcela, 32 anos)
3 – Entende como retardo, deficiência ou demência, núcleo onde foram agrupadas respostas nas quais o transtorno mental é entendido como um transtorno cognitivo que afeta a inteligência da pessoa em qualquer fase da vida (desde o nascimento, em jovem ou a partir da fase adulta), exemplo: “... o transtorno mental, que eu acho, é uma pessoa assim... que não aprende a fazer nada...”. (Márcia, 66 anos)
4 – Entende como comportamento estranho, onde agrupamos os discursos que se referiam ao transtorno como algo associado ao comportamento do indivíduo, porém com características estranhas a sua forma habitual de agir. Exemplo: “... de repente ele saiu, começou a mudar as atitudes dele, aí eu percebi que alguma coisa tava errada, assim... na... na maneira dele agir, ele tava agindo diferente...” (Joana, 51 anos)
5 – Reproduz o discurso do médico, núcleo no qual agrupamos respostas que aparentemente reproduziam o que os médicos haviam dito e não um entendimento pessoal do entrevistado a respeito da questão formulada a ele. Exemplo: “...o médico fala esquizofrenia, mas esquizofrenia era o que? Vem da onde? Do que?” (Joana, 51 anos)
Em relação à segunda questão: “O que você acha que causou este problema no seu familiar?” , os núcleos encontrados foram:
1 – Explicação espiritual/ religiosa. Classificamos aqui respostas que atribuíam a causa do transtorno mental ao âmbito espiritual e/ou religioso, por exemplo: “Às vezes sinto que é um encosto, porque ele se transforma, parece que tem uma pessoa dentro dele que faz ele fazer tudo isso, porque não é ele quando ele está assim, é outra pessoa (que) parece que está dentro dele”. (Rafaela, 23 anos)
2 – Explicação pela hereditariedade ou por herança biológica. Neste núcleo agrupamos aquelas respostas que relacionaram o transtorno mental à herança biológica da família, por exemplo: “quando meu pai casou, meu pai já tinha o problema, então aí todos os filhos (nasceram com problemas mentais). Inclusive ele e meu irmão que mora junto com ele (...), e a minha irmã I. também, todos eles já foram internados”. (Michele, 48 anos)
3 – Reações a problemas cotidianos. Aqui incluímos discursos que se referiam aparentemente a um certo esgotamento do indivíduo em função de problemas do dia-dia, como por exemplo: “...foi nervoso...onde ele trabalha, que é roça, tiraram sarro dele, aí ele ficou nervoso”. (Arlete, 27 anos)
4- Reação a problemas de infância. Este núcleo abrange as respostas que relacionam o transtorno mental a problemas que ocorreram na infância, por exemplo: “ele vem sentindo falta de carinho, atenção, porque criança tem que ser cuidada de pequena e não depois de grande”. (Renata, 28 anos)
5- Responsabilidade da própria pessoa ou vulnerabilidade pessoal, núcleo onde agrupamos os discursos que atribuíam o adoecimento de seu familiar a ele próprio, à falta de condição pessoal em lidar com a realidade. Por exemplo: “eu penso que seja, eu acho isso, a pessoa se enfraquece por qualquer coisa e se deixa levar, porque a gente tem que ter, a gente tem que segurar a mente às vezes. Não pode se deixar levar por todo nervoso. ”. (Arlete, 27 anos).
3.2- Discussão dos Resultados:
Foi possível perceber que todos os entrevistados eram do sexo feminino, o que talvez se explique pelo que fora citado por Moura e Araújo (2004) e Roudinesco (2003), na questão da valorização social da mulher enquanto aquela que cuida e materna. Tal visão da função da mulher constituiu-se a partir da incisão do mito do amor materno e teve papel essencial na constituição da família moderna. Neste sentido a mulher se torna a grande responsável por tudo que acontece com o filho, sua educação, seu lazer, seus estudos, sua sexualidade, enfim sua felicidade ou sua desgraça, enquanto o homem fica com a responsabilidade econômica da família.
O avanço do Capitalismo, além da disseminação do modelo de família nuclear, passou a requere também a mão de obra feminina. Assim, ao entrar no mercado de trabalho a mulher adquiriu mais uma responsabilidade, a de prover e/ou auxiliar na manutenção financeira da casa. Porém, continuou ainda, com a função da maternagem, e na maioria das vezes não tem com quem dividí-la. Devido a tal circunstância, pensamos ser este o motivo que leva a que mais mulheres se envolvam nos cuidados de parentes doentes do que os homens, já que estes não tem o cuidado com o outro como uma responsabilidade e, quando o tem, geralmente é por opção.
Em relação ao diagnóstico médico relatado pelos entrevistados a maioria não condiz com a nosologia médica, e quando questionados sobre o que é o transtorno mental dizem não entender o que é, ou seja, fica explícito a falta de compreensão. A este respeito Marcela 32 anos, nos diz: “...não sei dizer o que eu entendo” . A priori, relacionamos tal fato com a falta de escolaridade e de acesso à informações médicas sobre transtornos mentais. Porém, este fator não se confirma, uma vez que entre os entrevistados, predomina o ensino fundamental completo e metade deles convive há mais de vinte anos com seu familiar portador de transtorno mental. Desta forma, pensamos que os familiares através das internações de seus parentes tiveram contato bastante longo com equipes de saúde mental .
Tal quantidade de internações pode estar relacionado com os pensamentos da psiquiatria moral, que fora bem representada por Esquirol, psiquiatra do século XVIII, que preconizava: “Um grande número de casos de pacientes que permaneciam clinicamente bem quando estavam internados, bastando o retorno ao núcleo familiar, para que o quadro se agravasse’’ (BERMAM, 1978, apud MELMAM 2001,p 49). Ainda falando sobre a psiquiatria moral, esta veio regulamentar os comportamentos dentro da relação familiar, o que nos leva a acreditar que seja este um dos motivos de haver familiares que entendem o transtorno mental como um comportamento estranho, ou seja, associam este à características estranhas da forma habitual de agir do indivíduo.
Percebemos também que muitos entrevistados apenas reproduziam o discurso médico quando questionado o seu entendimento do transtorno, sendo possível ver claramente o não entendimento subjetivo de tal tema. Isso podemos perceber no que diz Ilma 51 anos, “ah segundo os médicos né, ela tem uma deformação no cérebro...”. No entanto, também sabemos que de acordo com Ariés (1981), Berenstein (1988), Melman (2001), na sociedade contemporânea a responsabilidade da educação dos filhos é predominantemente da família nuclear e esta, quando se depara com o adoecimento mental de um de seus membros, procura formas de explicar e conceituar enfermidade, buscando tais explicações tanto com especialistas, como também na religião, ou no senso comum.
Ainda falando sobre o entendimento da doença mental, alguns familiares colocaram que a entendiam como uma doença, não emocional e sim no sentido orgânico, esta é a explicação de Fabiana 69 anos, “... é uma doença grave, que não tem cura, tem melhora, mas cura não tem...”, ou então como um retardo, deficiência ou demência, como nos diz Fabiana 69 anos, “...mas assim distúrbio ali na minha família não tem, tanto é que os dois irmão(s) dela é muito inteligente...”. Utilizaram também, como forma de explicação de causa do transtorno mental, a questão da hereditariedade, da forma como verbaliza Marcela 32 anos, “eu acho que é uma pré-disposição né, familiar, genética...” Desta forma, é possível reconhecer nestas falas o atravessamento do discurso biomédico que está intimamente relacionado ao positivismo, ou seja, um modelo que preconiza fatores extremamente materiais, como causa de todos os fenômenos de saúde. Neste sentido o que não for suscetível de ser medido em laboratórios não é reconhecido.
Sobre as possíveis causas atribuídas pelos familiares entrevistados para o desenvolvimento da doença mental, a questão da religiosidade se faz presente neste contexto Rafaela 23 anos, por exemplo afirma sobre o problema de saúde de seu familiar: “não é ele que esta fazendo tudo isso, parece que tem alguma coisa nele”. Apesar de todos relatarem serem cristãos muitos atribuíram a doença mental a algo espiritual, ou seja, a um “encosto”. E este é um mito que vem desde a antiguidade. De acordo com Coleman (1969), acreditava-se que os “loucos” eram possuídos por demônios, seja por castigo divino ou por fraqueza de espírito.
Foi também causa descrita como propulsoras do aparecimento do transtorno mental reação a problemas da infância como nos diz Ilma 51 anos, “...devido a um tombo na infância...”. A reação a problemas cotidianos também aparece como explicação por Rafaela 23 anos, “...sempre que surge um problema, sempre numa dificuldade entra em crise, que ele acha que é uma dificuldade na cabeça dele então começa a entrar em crise”. A responsabilidade da própria pessoa ou vulnerabilidade pessoal, é explicação utilizada por Arlete 27anos, com a seguinte frase: “é fraca da idéia”,.
Winnicott (2001) aborda a questão da importância da família e dos seus cuidados, ou seja, carinho, atenção, continência etc., na constituição do sujeito. O autor expõe que a tarefa da família não vai ser apenas no sentido de satisfazer impulsos instintivos, mas sim ser continente ao indivíduo, inclusive na medida em que ele cresce e suas necessidades vão se modificando. E assim poderá proporcionar um ambiente que possibilite a integração do individuo. Deste modo, este sujeito “integrado” terá recursos para tentar superar os problemas cotidianos, como cita Ramos (1984), à partir de H. Selye, de que o stress é o resultado da luta para a autopreservação das partes dentro do todo, e sabemos que os extressores externos podem levar o sujeito vulnerável á um transtorno mental.
Tais argumentos nos levaram a pensar no quanto o discurso psicológico está incutido na sociedade. Porém, muitas vezes de forma superficial, já que parece culpabilizar se não total, mas parcialmente a família e/ou o próprio sujeito pelo desenvolvimento do transtorno mental. Na realidade, a psicologia aborda este tema no sentido do funcionamento global da família e o quanto isto pode ou não beneficiar a integração de seus membros. Entretanto há casos em que a família funciona de forma adequada para propiciar tal integração, no entanto pode ser que uns de seus membros por uma questão ou outra individual, não consiga internalizar tal investimento, não conseguindo assim integrar-se. Diante disto, acreditamos que é necessário haver um maior espaço institucional para uma possível explicação do entendimento psicológico frente ao desenvolvimento do transtorno mental.
4. Conclusões
Diante da revisão bibliográfica, confrontada com os dados colhidos e analisados, percebemos que há ainda uma grande dificuldade por parte dos familiares primários de portadores de transtornos mentais em conceituar o que é o transtorno mental. Essas dificuldades ficaram evidentes nos discursos analisados, onde pudemos perceber o atravessamento de vários tipos de pensamentos, que incluem os termos médicos, biológicos, hereditários e religiosos.
Dentro da nossa pesquisa, a utilização da explicação religiosa chamou a nossa atenção diante das outras utilizadas, devido aos conceitos sobre “ loucura” relatados em pleno séc XXI serem os mesmos ou semelhantes aos encontrados na literatura relacionada a idade média.
Vimos também que os familiares entrevistados conviviam a bastante tempo com o portador de transtorno mental. Portadores estes, com um histórico longo de internações e conseqüentemente contato com equipes de saúde mental. Neste sentido levantamos duas vertentes de reflexão:
(mestrado Cris)
Qual a influência do mito familiar no funcionamento destas famílias? Como este (o mito) reflete na constituição do sujeito portador de transtorno mental? E o quanto o mito familiar impede o entendimento sobre o transtorno mental e seu tratamento?
(professora, quero falar sobre o individuo psicótico como parte integrante e fundamental para a homeostase da família)
(mestrado Rose)
Porém, talvez essa não seja uma questão relacionada apenas a estrutura familiar, mas também se estenda às equipes de saúde mental. Assim questionamos que forma é essa que as equipes vem abordando tais famílias? Será que as equipes de saúde mental já se deram conta de tantos atravessamentos que se tem nos dicursos das famílias? Ou será que as equipes se colocam como detentoras da verdade e não buscam saber que formas estas vêem entendendo o transtorno mental?
Cristiane Molina de Oliveira
Rosemeire Meza dos Santos
Profº mestre Solange M. S. Rolin de Moura / Campus II - Psicologia

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