CONTO, UMA JANELA PARA AS FANTASIAS

I. INTRODUÇÃO TEÓRICA

O presente trabalho originou-se da curiosidade dos alunos de Psicologia do 4º ano e estagiários da brinquedoteca, em tentar entender como a criança cria sua fantasia de doença e de cura durante sua internação no Hospital Universitário. É através da criação de um conto junto a criança internada que pretendemos chegar a estas fantasias, visto que ao criar um conto a criança projeta nele aspectos internos e particulares de sua psique.
Antes de falarmos sobre o projeto que desenvolvemos dentro da brinquedoteca, explicaremos o que é , e para que serve uma brinquedoteca. Ela funciona em um espaço dentro do Hospital Universitário, na ala pediátrica, onde estarão das 14hs ás 17hs de segunda a sábado, disponíveis brinquedos para as crianças internadas. Os brinquedistas que nela fazem estagio são alunos do sexto e sétimo termo de psicologia, supervisionados uma vez por semana pela professora Josiane.
``A brinquedoteca é um espaço criado com o objetivo de proporcionar estímulos para que as criança possam brincar livremente.``(Santos,1997)
“Na elaboração dos objetivos de uma brinquedoteca, são enumeradas como principais finalidades do trabalho nela desenvolvido:
• proporcionar um espaço onde a criança possa brincar sossegada, sem cobranças e sem sentir que esta atrapalhando ou perdendo tempo;
• estimular o desenvolvimento de uma vida interior rica e da capacidade de concentrar a atenção;
• estimular a operatividade das crianças;
• favorecer o equilíbrio emocional;
• dar oportunidade a expansão de potencialidades;
• desenvolver a inteligência, criatividade e sociabilidade;
• proporcionar um acesso a um numero maior de brinquedos, de experiências e de descobertas;
• dar oportunidade para que aprenda a jogar e a participar;
• incentivar a valorização do brinquedo como atividade geradora de desenvolvimento intelectual, emocional e social;
• enriquecer o relacionamento entre as crianças e suas famílias ;
• valorizar os sentimentos afetivos e cultivar a sensibilidade.” (Santos,1997)

“A escola pode ensinar, a psicopedagogia pode cuidar dos problemas de aprendizagem, a psicologia pode resolver problemas emocionais, a família pode educar, mas a brinquedoteca precisa preservar um espaço para a criatividade , para a vida afetiva para o cultivo da sensibilidade; um espaço para a nutrição da alma deste ser humano criança, que preserve sua integridade, através do exercício de respeito a sua condição de ser em formação.” (Santos,1997)
“A brinquedoteca tem uma mensagem a dar para a escola porque pode ajudar as crianças a formarem um bom conceito de mundo, um mundo onde a afetividade e acolhida, a criatividade estimulada e os direitos da criança respeitados.” (Santos,1997)
Segundo Santos em relação as crianças , uma brinquedoteca pode ter varias funções, isto é, pedagógica, social, comunitária e de comunicação familiar. A função pedagógica seria a de oferecer a possibilidade de seleção de bons brinquedos e de qualidade. A função social seria a de possibilitar que as crianças procedentes de famílias economicamente menos favorecidas possam jogar com brinquedos, que em outras circunstancias não teriam acesso. A função comunitária seria a de favorecer que crianças jogando em grupo aprendam a respeitar , a ajudar e a receber ajuda , a cooperar e a compreender aos demais. A função de comunicação familiar se contempla no momento que seja reanimado o jogo no seio das famílias.
“O porque da brinquedoteca justifica-se também por implicações de outras ordens , tão relevantes quanto aquelas ate agora apontadas , como por exemplo o valor sociológico que ele abarca, onde a comunicação, a convivência e a interação grupal servem para humanizar o individuo, onde a ancora pedagógica e o jogo, isto é, instruir-se deleitando-se” (Santos,1997).
Segundo Aberasture sabe-se que a criança enferma possui uma fantasia de sua doença. Esta fantasia refere-se de forma inconsciente aos motivos que a criança imagina, ter levado-a a ficar doente, incluindo também sua fantasia inconsciente de cura.
A criança nos comunica estas fantasias quando damos a ela a possibilidade de projetá-la, seja através de jogos como na hora do jogo, através de brincadeiras, desenhos e também na criação de contos, onde pretendemos apresentar neste projeto, ou seja, este projeto visa apontar nos contos colhidos durante o estágio da brinquedoteca as fantasias de doença e cura encontradas nas criações realizadas pelas crianças internadas.
Por que escolhemos o conto de fada para o nosso projeto? De acordo com Bettelheim os contos de fadas são obras de artes integralmente compreensível para a criança como nenhuma outra forma de arte o é, e o seu significado mais profundo será diferente para cada pessoa, em diversos momentos de sua vida. Alem de divertir as crianças, esclarecem sobre si mesmo e favorecem o desenvolvimento de sua personalidade e as ajudam a lidarem com problemas psicológicos.
A maioria dos contos de fadas originou em períodos que a religião era parte muito importante da vida lidando diretamente ou por interferência com temas religiosos. Algumas estórias folclóricas e de fadas desenvolveram-se a partir de mitos, outras foram a eles incorporados. Estas duas formas incorporaram a experiência cumulativa de uma sociedade, já que os homens desejam relembrar a sabedoria passada e transmiti-las a gerações futuras. Os contos fornecem percepções profundas que sustentam a humanidade através das longas vicissitudes de sua existência, é uma herança transmitida de forma simples e diretamente, e de modo tão acessível as crianças.
‘’As figuras e situações dos contos de fadas também personificam e ilustram conflitos internos, mas sempre sugerem sutilmente como estes conflitos podem ser solucionados e quais os próximos passos a serem dados na direção de uma humanidade mais elevada.’’ (Bettelheim,1980)
Uma característica marcante dos contos de fadas é o dilema existencial apresentado de uma forma breve e categórica, ele simplifica todas as situações, o que permite a criança aprender o problema em sua forma mais essencial. Suas figuras são esboçadas claramente, e detalhes não muito importantes são eliminados. Todos os personagens são mais típicos do que únicos, o mal é tão onipresente quanto a virtude. Praticamente em todo conto de fadas o bem e o mal recebem corpo na forma de algumas figuras e de suas ações, já que bem e mal são onipresentes na vida e as propensões para ambos estão presentes em todo homem. É esta dualidade que coloca o problema moral e requisita a luta para resolvê-lo.
O conto de fadas oferece soluções sob formas que a criança pode apreender no seu nível de compreensão. Por exemplo, os contos de fadas colocam o dilema de desejar viver eternamente ao concluir ocasionalmente: “se eles não morreram, ainda estão vivos”. O outro final - “e viveram felizes para sempre”- não engana a criança nem por um momento quanto à possibilidade de vida eterna, mas indica realmente a única coisa que podemos aprender, ou seja, construir uma ligação verdadeiramente satisfatória com outra pessoa.
Neste sentido eles nos ensinam que quando uma pessoa assim o fez, alcançou o máximo em segurança emocional de existência e permanência de relação disponível para o homem e só isto pode dissipar o medo da morte. Sendo assim eles transmitem importantes mensagens à mente consciente, à pré – consciência e ao inconsciente, em qualquer nível que esteja funcionando no momento. Lidando com problemas humanos universais, particularmente os que preocupam o pensamento da criança, como os problemas psicológicos do crescimento, separações decepções narcisistas, dilemas edípicos, rivalidades fraternas, ser capaz de abandonar dependências infantis, obter um sentimento de individualidade e de autovalorização e um sentido de obrigação moral, pois, estas historias falam ao ego em germinação e encorajam seu desenvolvimento enquanto ao mesmo tempo aliviam pressões pré–consciente e inconsciente. A medida em que a estória se desenrolam, dão validade e corpo ás pressões do id, mostrando cominhos para satisfazê-los, que estão de acordo com as requisições do ego e do superego.
O paciente através dos contos de fadas tem a possibilidade de externalizar seus processos internos, tornando-os compreensíveis enquanto representados pelas figuras da estória e seus incidentes. Chegando a ter um fim terapêutico porque o paciente encontra sua própria solução através da contemplação do que a estória parece implicar acerca de seus conflitos internos neste momento da vida. O conteúdo do conto escolhido usualmente não tem nada que ver com a vida exterior do paciente, mas muito a ver com seus problemas interiores, embora possa começar de forma bastante realista e ter entrelaçados os traços do cotidiano. A natureza irrealista destes contos torna óbvio que a preocupação do conto de fadas não é uma informação útil sobre o mundo exterior, e sim sobre os processos interiores que ocorrem num indivíduo.


II. OBJETIVO
Identificar as fantasias de doença e de cura dos contos criados pelas crianças internadas.



III. METODOLOGIA

A metodologia utilizada neste projeto refere-se à analise de conteúdos. Este método parte da hipótese de que o indivíduo identifica-se com uma ou mais personagens, atribuindo a eles suas próprias características e necessidades, alem de configurar a situação e demais personagens do modo como configura sua percepção do ambiente e relação com o mesmo, no entanto não podemos esquecer que os dados obtidos pôr meio desta analise refere-se ao modo como o indivíduo vê aos outros e como ele mesmo o vê. Sendo assim os conteúdos latentes tais como as fantasias de doença e de cura são representados e manifestadas através dos personagens.
No desenvolvimento do projeto foram entrevistadas sete crianças internadas no Hospital Universitário entre cinco e catorze anos de idade no período de fevereiro à junho de dois mil e quatro.
A coleta dos dados ocorre através da realização do rapaport, em seguida de entrevistas e criações de contos. Na entrevista é questionado a criança alguns dados pessoais como nome, idade e motivo da internação e quando necessário o responsável pôr ela é contatada para maiores informações. Já na criação é apresentado a criança o inicio de um conto “Em uma floresta distante, havia uma família de anões. Um belo dia um dos filhos da família precisou ir ao hospital...” e solicitado para que ela desse continuidade e finalizasse esta estória. Sendo ainda possível um posterior interrogatório para uma melhor compreensão da mesma.




ANALISE DE CONTEÚDO

1- Fantasia de doença: “...o anãozinho subiu na árvore para pegar manga e caiu, porque quebrou o galho...” ” Ele só fez um ralado.”
Fantasia de cura: “...lá os médicos fizeram um curativo nele.”

2- Fantasia de doença: “...o anãozinho tinha uma doença que não sarava...”” Um dia ele ficou muito doente, a mãe dele pediu que ele comece, mas ele não queria comer.”” ...E ele falou que não queria ir no médico porque ele tem medo que abrissem a barriga dele...”
Fantasia de cura:”...você tem que ir no medico, como você quer sarar?...””... Eu estou melhor”. “...Filho você esta melhor? Lógico mãe, uma amiga minha me ajudou”.

3- Fantasia de doença: “...anão caiu da arvore e bateu a cabeça na pedra que estava no chão, e desmaiou...”
Fantasia de cura: “...Ficou em repouso para tomar medicamento...voltaram embora feliz.”

CONTOS:

1 - P. 8 anos, fratura no cotovelo.

“...o anãozinho subiu na árvore para pegar manga e caiu, porque quebrou o galho. Outro seu irmão viu que ele caiu e levou ele para o hospital, chegou lá os médicos fizeram um curativo nele.
Os pais estavam trabalhando e não sabiam que ele tava no hospital. O anão apenas foi no hospital e fez o curativo e voltou para casa e na hora que o pai viu que ele machucou brigou com ele. Ele só fez um ralado.”

2 - E. 11 anos, operou apêndice.

“...o anãozinho tinha uma doença que não sarava, mas ele foi para o medico com a mãe dele que se chama Miriam, mas ele não queria ficar doente.
Um dia ele ficou muito doente, a mãe dele pediu que ele comece, mas ele não queria comer. A mãe dele levou para o medico , na hora que ela olhou para o quarto ele fugiu pela janela. Ele andou bastante, tão bastante que ele não conseguia nem andar e ai ele foi descansar numa arvore. Uma menina que se chama Carol encontrou ele e falou que ele ia voltar pra casa, mas ele falou que não queria ir no medico, mas ela falou:
- você tem que ir no medico, como você quer sarar?
E ele falou que não queria ir no médico porque ele tem medo que abrissem a barriga dele e ficou tão desesperado que ele falou umas coisas boas mas que deixou ele desesperado. Ele falou que ela falou muito e que ele resolveu ir embora, a mãe ligou pra polícia para procurar. O polícia perguntou para a mãe:
- que idade ele tem?
- Nove anos.
E ai a polícia foi procurar, na hora que a polícia saiu ele viu o moleque que falou:
- o que você tá fazendo aqui parece que viu um ladrão?
- Nada disso, que você esta pensando, eu estava procurando você mesmo.
- eu?
- já pra dentro, sua mãe tá procurando você.
- já to indo.
E ai ele apareceu na porta e viu todo mundo da família olhando pra ele, e falou:
- que que foi, vocês nunca viram eu? Parece que vocês viram uma assombração.
Nada disso disse a família.
- estamos procurando você.
- eu estou melhor.
- filho você esta melhor?
- lógico mãe, uma amiga minha me ajudou.
- você nunca falou dessa amiga.
- porque era segredo meu.
- filho, filho, vamos esquecer disso, vamos viver felicidades, seu pai daqui a pouco vai chegar (o nome dele e Juca), tá na hora de dormir, amanhã você tem que ir para a escola.
E ai eles viveram felizes para sempre.

3 - J. R. 15 anos, meningite.

“...anão caiu da arvore e bateu a cabeça na pedra que estava no chão, e desmaiou, foi para o hospital tomar soro. A mãe chamou a ambulância para levar ao hospital pelo telefone.
Ficou em repouso para tomar medicamento, ficou triste de ter caído lá da arvore. E voltaram embora feliz.”

4 - C. 10 anos, queimou o pé.
“...a mãe levou o anão pro medico, quando estava chegando no hospital tinha uma grande cobra perto do hospital e eles não tinham o que fazer, pulou a cobra começou correr atrás deles.
Chegando no hospital a cobra já estava cansada tanto de correr atrás deles e resolveu voltar. E quando eles estavam voltando a cobra começou a correr atrás dele(anão), e a mãe dele pegou a mão dele e começou a correr para sua casa. No outro dia ele tinha que ir no hospital de novo, e a cobra começou a correr atrás deles , a cobra estava correndo para falar o nome dele. Ele falou:
- sou feliz e o seu?
- sou o Pedrinho, vamos passear por ai?
E a mãe do Feliz deixou ele ir, e o Feliz dormiu a noite na casa da cobra. No outro dia a mãe dele começou a procurar e numa linda cabana ela achou eles dois, e o menino pediu pra sua mãe deixar a cobra morar com eles, e eles ficou feliz para sempre.”



5 - P. 9 anos.

“...saíram para fazer um piquenique, de repente apareceu um urso e destruiu tudo, e pegou os três filhos, e levou eles para a caverna e prendeu eles. Então os pais foram atrás, no meio do caminho encontraram a corrente de um dos filhos e foram em frente. Eles acharam a caverna e entraram lá dentro e o urso tinha saído para pegar madeira e eles salvaram os seus filhos e foram embora. E ficaram felizes para sempre.”



6 - L. F. 15 anos

“...eles saíram para trabalhar de colher uvas, eles saíram meio dia para almoçar, duas café, foram embora para casa, muito contente e feliz. As seis eles jantaram (família toda), foram dormir as sete, de repente um dos anões começou a passar mal porque comeu muita uva, e foi logo para o hospital. O medico perguntou o que ele comeu tanto assim? O pai respondeu, uva,.
Um certo dia, eles foram trabalhar, mas só foi seis, ai o pai falou: não come muita uva porque e perigoso passar mal.”

7 - K. 16 anos, fratura exposta na perna.

“...anãozinha precisou ir pára o hospital para ganhar mais um anãozinho, que estava quase para ganhar.
Ela fez os exames tudo certinho, demorou um pouquinho ai ele vai para a sala de cirurgia, ai ela ganhou o anãozinho, era linda, colocou o nome de Kimberlin, ai a mamãe anã chamada Karina, ai ela ficou muito feliz e recebeu alta e ninguém foi visitar, ele mesmo assim ficou feliz por ter ganhado uma linda anãzinha.
Ela chegou na sua casa de volta, estava tudo apagado deu a impressão que não tinha ninguém, ai ela ficou assustada, quando ela abriu a porta tinha um monte de gente na sua casa, era uma festa surpresa, ele ficou muito feliz por ter achado que não tinha ninguém te esperado. Todos se abraçaram e se beijaram.”
BIBLIOGRAFIA

Bettelheim,B. A psicanálise dos contos de fadas. Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro,1980.
Silva, Maria Cecília de vilhema Moraes. TAT: Aplicação e Interpretação do Teste de Apercepção Temática. Editora Pedagógica e Universitária LTDA, São Paulo,1989.
SANTOS,S.M.P. Brinquedoteca: O lúdico em diferentes contextos. Editora Vozes, Petrópolis,1997.



AUTORES:
JOÃO RENATO CIABATTARI PAGNANO
CRISTIANE MOLINA DE OLIVEIRA

1 comentários:

Natalia disse...
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