Introdução
O presente projeto refere-se ao estágio clinico realizado no ultimo ano do curso de Psicologia da Faculdade Unoeste de Presidente Prudente - SP. Este trabalho é requisito parcial de conclusão do curso. Tem como abordagem clinica a Psicanálise, seguindo a teoria de Freud e Lacan.
O tema apresentado neste projeto é a clinica da psicose, será primeiramente abordado uma breve teoria sobre a psicose, sua analisabilidade e sua clinica. Posteriormente será ilustrado com um caso clínico de um paciente atendido no ano de 2005.
A psicose que será o assunto principal é estudada pela psicanálise já à muito tempo, porem, diferente da neurose, ainda é um tema com poucas bases teóricas que assegurem sua clínica. Tem este projeto, assim, o objetivo de contribuir também com o crescimento teórico para que consequentemente novas possibilidades de trabalho clinico sejam criadas.
Psicose
É primeiramente a partir do diagnóstico diferencial, por meio dos três modos de negação do Édipo, que será caracterizada a estrutura psicótica. Em relação às três estruturas clínicas: neurose, perversão e psicose. Um tipo de negação nega o elemento, mas o conserva, mani¬festando-se de dois modos: no recalque do neurótico, nega conservando o elemento no inconsciente e o desmentido do perverso, o nega conservando-o no fetiche. A foraclusão no psicótico é um modo de negação que não deixa traço ou vestígio algum: ela não conserva, arrasa. Os dois modos de negação que conservam implicam a admissão do Édipo no simbólico, o que não acontece na foraclusão com a psicose.
Na psicose, o que é negado no simbólico retorna no real sob a forma de automatismo mental, cuja expressão mais evidente é a alucinação. Como o retorno é no real, ou seja, fora do simbólico, emprega-se o neologismo "fora¬clusão", utilizado no âmbito jurídico para se referir a um processo prescrito, ou seja, aquele de que não se pode mais falar porque legalmente não mais existe. O termo de foraclusão como forma de negação indica por si mesmo esse local de retorno, a "inclusão" fora do simbólico.
Na psicose, o significante retoma no real, apontando a relação de exterioridade do sujeito com o significante, como aparece, de uma forma geral, nos distúrbios de linguagem constatáveis por qualquer clínico que se defronte com um psicótico, sendo que seu paradigma são as vozes alucinadas. Encontram-se também: intuições delirantes, nas quais o sujeito atribui uma significação enigmática a um determinado evento sem conseguir explicitá-Ia; ecos de pensamento, onde o sujeito ouve seus pensamentos repetidos, podendo atribuir a alguém essa ressonância; pensamentos impostos, nos quais o sujeito não reconhece como sua a cadeia de significantes, que adquire uma "autonomia" que ele refere como obra do outro.
A dúvida é caracte¬rística do neurótico porque denota uma divisão do sujeito, onde há um sim e um não. Na psicose, a certeza - certeza delirante por excelência - já mostra, portanto, um distúrbio na linguagem. Por outro lado, a foraclusão do Nome-do-Pai implica a "zerificação" do significante fálico, tendo como efeito a impossibilidade de o sujeito se situar na partilha dos sexos como homem ou mulher - efeito que poderá manifestar-se em uma série de fenômenos, que vão da vivência de castração à transformação em mulher.
O estabelecimento de um princípio etiológico e causal diferente no seio da teoria das psicoses e no seio da compreensão teórica das mesmas, implica uma série de reconsiderações da clínica assim como da sua possível abordagem.
É evidente que não podemos nem pretendemos nos enganar pen¬sando que "sujeito" e "outro" são duas coisas totalmente separadas sem nenhuma conexão ou ligação entre si. Pelo contrário, sabemos que "sujeito" e "outro" são efeitos simultâneos de um mesmo fato: a relação de desejo. Exemplificando: o desejo da mãe define a crian¬ça, mas nem por isto deixa de definir a mãe. De qualquer forma, o que a clínica nos ensina é que essa simultaneidade estrutural não impede que a decantação dos efeitos seja relativamente independente. Quero dizer que nada impede que o desejo (cujos efeitos são múl¬tiplos) produza em certas e determinadas circunstâncias, resultados parciais.
O processo parece se desenvolver da seguinte maneira. Par¬tindo de sua condição o sujeito encontra-se com seus objetos e com o outro-semelhante (a), sendo a condição essencial destes obje¬tos ou destes outros justamente a de serem semelhantes, isto é, terem a capacidade de ser reflexo do Eu (a). Baseando-se neste percurso já feito, é que o sujeito pode chegar à compreensão de seu lugar (A). Não é uma compreensão fácil já que se trata de uma interrogação difícil, basicamente porque esse lugar não depende do Eu. Depende do Outro. Um lugar na, genealogia, na família, no discurso, em suma, no desejo.
Para que o acesso a esse lugar seja possível, para que o sujeito possa compreendê-Io, tal lugar tem que ter sido enunciado pelo Outro. Quero dizer que o percurso do sujeito é diametralmente oposto ao do desejo do Outro que, antes de seu nascimento, antes de sua a-parição, o Outro designa um lugar para o sujeito em função do qual estabelecer-se-á um Eu e lhe designará certos e determinados objetos (a) que o levarão a uma determinada' condição.
Antes do sujeito o Outro define o jogo. Para que o sujeito possa compreender esse jogo é necessário que as cartas estejam sobre a mesa. E necessário que não haja blefe. Mas acontece que nem sempre este Outro se define pela sua clareza. Há ocasiões em que os dados estão marcados. Nesses casos o Outro cala, e cala com a força de uma rejeição. Trata-se de uma particular rejeição (chama¬la-emos, por acaso, Verwerfung?) que detém o futuro psicótico no meio do caminho deste, percurso. O que a clínica nos diz é que nem sempre esta detenção é de igual calibre. Efetivamente, o que a clínica nos demonstra é que certas psicoses, parecem situadas naquela posição que se caracteriza pelo fato de que a condição do sujeito (S) se define na relação com os objetos, com o outro-semelhante. Como se nelas a inscrição (de objeto e do outro) fosse tão precária que a Demanda é sempre Demanda de presença dos mesmos. Mais ainda, Demanda de presença no real.
Por outro lado, a clínica também nos demonstra a existência de outro tipo de psicose que parece situada como a-a'. Desta relação - que, em essência, é relação do Eu com seus objetos, com seu semelhante - Lacan nos diz que é sede do espelhismo narcisista. Certamente todo espelhismo se define na relação do Eu com seus objetos, o que provoca um certo romance ou trama, nem que seja do tipo delirante. Embora o delírio seja comum aos dois tipos de psicose, as de "presença" apresentam uma capacidade de construir tramas temáticas e esta capacidade lhes é própria e específica. Não poderia ser de outra maneira visto que se definimos o Eu como a substituição, no sujeito, de objetos passados e perdidos há, nas Psicoses de Presença, uma tarefa a mais que não foi realizada nas de Ausência e que, portanto, falta. O drama das Psicoses de Presença reside na tentativa (por outro lado impossível) de conservar hic et nunc o paraíso narcisista.
Em outras palavras, adianto a idéia de que enquanto as Psico¬ses de Ausência procuram ter acesso ao paraíso narcisista aspirando pela presença (no real) do objeto, as Psicoses de Presença procuram conservar o paraíso narcisista aspirando pela confirmação permanente da existência do mesmo e, para isto, lhes é necessário e peremptório evitar a presença e produzir a ausência de qualquer terceiro capaz de representar a castração. Sabemos que a presença exigida pelas Psicoses de Ausência é obtida através da alucinação e do delírio do demandado, enquanto que a ausência do terceiro exigida pelas Psicoses de Presença é obtida através do recurso à rejeição (que deve ser lida: Verwerfung).
Coerentemente com isto, a posição do analista difere em cada caso, visto que ela se inscreverá em qualidade de Outro da Demanda (no real) ou em qualidade de Outro da castração (no imaginário) em se tratando de um ou outro tipo de psicose.
Ao considerar o problema desde esta perspectiva, estamos nos aproximando da questão da transferência. Uma transferência que justamente - Freud definiu como a manifestação estereotipada de um clichê do sujeito operando na relação intersubjetiva. É evidente que, ao considerá-lo desde esta ótica, entramos em franca contradição com o pressuposto freudiano da inexistência de capacidade de trans¬ferência nas psicoses. E, no entanto, não poderia ser de outra forma, sobretudo se levarmos em conta que por transferência se entende (atendo-nos a seu aspecto dialético) o conjunto de expectativas, isto é, o lugar inconsciente que cabe à esfinge (ao outro, ao analista) na dialética do tratamento.
Sempre levando em conta esta dimensão, Lacan nos ensina que a transferência é um pressuposto. Leia-se: uma suposição. Trata-se de uma premissa da qual o paciente parte. E, se entrássemos no es¬tudo de seu conteúdo, veríamos que o mesmo consiste em que o neurótico vê em seu analista "o sujeito suposto saber". Pois bem, parafraseando esta definição diremos que o psicótico vê em seu ana¬lista "o sujeito suposto ser". Ser o Outro da Demanda. Ser o Outro da castração.
Como operar com e desde esta posição? Qual é a possibilidade que - para os efeitos do tratamento - tal lugar permite e habilita?
Para melhor compreender o problema, e para poder respondê-lo, será necessário estudar o lugar que cabe à transferência no processo analítico e sua relação com a interpretação. É neste ponto que apelamos para a definição lacaniana: "Digo que é numa direção do tratamento, segundo um processo que vai da retificação das relações do sujeito com o real ao desenvolvimento da transferência e daí para a interpretação, que se situa o horizonte em que surgiram para Freud as descobertas fundamentais...".
Neste texto Lacan demonstra que é partindo do Real que o sujeito se inscreve no Imaginário, cuja investigação analítica permite o acesso ao Simbólico. Neste movimento seqüenciado, o sujeito não faz outra coisa do que repetir a estrutura constitutiva através da qual o infans ingressa (ao atravessar as dobras imaginárias do espelho) no mundo do símbolo.
É, portanto, deste Real que depende a posição do sujeito, mas também - e sobretudo - a posição do outro. Quando este Real acolhe em seu seio a possibilidade de se deslocar na direção que as imagens lhe ditam, e quando para o sujeito é possível pensar a lega¬lidade dos deslocamentos imaginários, está garantida a possibilidade de acesso ao simbólico. É claro que este processo (tão linearmente descrito) apresenta hiatos imaginários que são os que definem a con¬dição neurótica. Mas, a situação desse Real nas psicoses é outra a tal ponto que o problema da abordagem clínica das psicoses de¬pende da caracterização deste real. É o real do silêncio autista, é o real da alucinação, é o real do delírio.
Quando - nas psicoses - esse real tem a possibilidade de entrar em circulação na dialética intersubjetiva, desenvolve-se um fenômeno imaginário cujo conteúdo é a designação de um lugar ao analista que responde à nossa fórmula: "o sujeito suposto ser". E, precisamente, a posição do outro neste registro, essa posição que (se nos permitem o termo) classificaríamos de ôntica, é o que Freud registrou como incapacidade de transferência. É que, em definitivo, parece difícil para o psicótico colocar em dúvida esta suposição. Disto deduzimos que as psicoses não são propriamente incapazes de transferência mas que, a rigor, são um terreno em que a elaboração da mesma torna-se particularmente difícil.
Em outras palavras, parece que é difícil para o psicótico tomar sua transferência como tal. Parece ser difícil para ele compreendê-la como um deslocamento de uma imago sobre a pessoa do analista. Em suma, parece ser muito difícil para ele reconhecer o imaginário como imaginário. Nas psicoses, o analista é realmente aquilo que o sujeito supõe que ele é. A margem de dúvida não existe porque não há inscrições simbólicas capazes de permitir que o sujeito tenha outra opção a não ser a imersão no real.
À luz de tudo- isto e entrando de cheio na clínica, cabe a se¬guinte pergunta: qual é a posição da interpretação? Qual seu lugar e sentido nas respectivas psicoses?
Começaremos dizendo que nas Psicoses de Ausência a posição da interpretação não pode - de modo nenhum - reproduzir as condições do diálogo analítico com as neuroses. Afinal, se nestas psi¬coses não há registro do outro, como poderia o paciente metabolizar seu discurso e sua palavra? É neste contexto que devemos entender e pensar certas intervenções como as propiciadas por Gisela Pankow ou inclusive pela própria Mme. Sechehaye.
Sechehaye vai longe. Tão longe que leva sua paciente para viver em sua casa e, concretamente, a "adota" (as aspas são necessárias). Não é uma adoção indeterminada, mas tem como limite de tempo, o tempo do tratamento. Por sua vez, Renée passa a chamá-Ia – daí por diante - "Mamãe" (é a própria Renée que coloca as aspas, como que percebendo que se trata de um laço simbólico). Frente a estes dados, somos obrigados a reconhecer que nos encontramos diante de uma abordagem que, a princípio, escapa a tudo o que tra¬dicionalmente se entende por postura clínica, situação clínica, diálogo clínico. A interpretação percorre e 'transita pelos caminhos do ato. A terapeuta acaricia, beija, acalenta, dá de comer, dá banhos, enfim, proporciona cuidados. Como entender esta prática?
Poderemos entendê-Ia pensando que a interpretação nas Psicoses de Ausência ocupa o lugar concreto e material de um estímulo, de uma sensação. Paradoxal? Nem tanto. Inicialmente porque nada impede um ato de conter uma propriedade simbolizante que, em última instância, é o objetivo de toda elaboração analítica. Em particular se trata de um ato realizado dire¬tamente como cuidado corporal oferecido ao doente, ¬por exemplo: massagens, banhos, abrigo - desde o ponto de vista analítico não se trata - como pensa a maioria dos autores - de proporcionar cuidados que o esquizofrênico não recebeu quando bebê, mas de lhe ofe¬recer sensações que coloquem um limite para seu mun¬do mágico e o levem a reconhecer os limites de seu corpo.
Neste sentido entende-se que Renée chame sua analista de "ma¬mãe". Não se trata de ter a mãe que não teve, mas de simbolizar uma posição, um lugar e uma relação, o que Mme. Sechehaye de¬fine sob o conceito de "realização simbólica". O conceito é suma¬mente claro já que nos fala da inscrição no real de um símbolo.
Não se trata de acalmar as ansiedades do paciente abraçando-o. Trata-se de nomeá-Ia ao cingi-Io com o abraço. O problema está si¬tuado ao nível do nome, e a própria Renée nos explica: "Fiquei muito contente quando no final do primeiro ano 'mamãe' mudou sua maneira de agir. No começo analisava tudo o que eu dizia: meu medo, minha culpa, e estas investigações me pareciam um julgamento".
Efetivamente, o diálogo analítico não pode adotar - nas Psicoses de Ausência - a forma discursiva que o caracteriza na psicanálise das neuroses. E embora acabe sendo repetitivo, gostaria de reiterar que isso se deve ao fato de que a estrutura de todo diálogo supõe uma distribuição de lugares; isto cria um espectro posicional onde cada um dos interlocutores assume um pólo diferenciado no inter¬câmbio. Há, em suma, uma distribuição de lugares que é o que jus¬tamente a esquizofrenia não pode realizar, a princípio porque ine¬xiste nela uma "definição simbólica" de lugar e, naqueles casos em que há um esboço posicional, este se encontra perdido e enterrado sob a massa do surto.
Resumindo, a palavra discursiva exige um esforço por parte do esquizo que este nem sempre pode realizar; Renée define isto muito claramente quando nos diz: "Deste modo, se me diziam 'procure saber em que casos sente a culpa aparecer e por quê, isso significa para mim que a culpa existia nitidamente e que o sistema es¬tava ali, presente".
Disto se deduz: é outro tipo de palavra que é capaz de operar na psicose. É outro tipo de discurso que se mostraria eficaz no diá¬logo com a esquizofrenia.
Analisemos de mais perto a eficácia desta interpretação, e para isto tomemos em primeiro lugar o tom afirmativo. Sabemos que o delírio é uma tentativa de restituir alguma função faltante e, por¬tanto, é uma busca. Mas também sabemos que é uma busca conde¬nada ao fracasso. Portanto, a pergunta indagatória da investigação psicanalítica, quando aplicada de acordo com os cânones e modelos herdados da clínica das neuroses parece repetir e desdobrar o sen¬tido e o ritmo da dúvida delirante.
Na interpretação, deve-se nomear as coisas e, ao nomeá-las, fixá-las. Renée entra por este caminho no universo do significante. O importante é que o nome fixe uma propriedade, uma condição, um atributo simbólico.
Temos que reconhecer que o recurso à terceira pessoa grama¬tical na interpretação não é totalmente original. Quero dizer, não é uma total novidade, já que se trata de um recurso dramático do discurso analítico. E digo dramático porque permite encenar – de fato, sublinhando-a - a proposta básica de toda análise. Já comen¬tamos que o importante da interpretação é seu efeito de descentra¬mento. A interpretação deveria permitir - pelo menos teoricamente - o descentramento do ideário narcisista e imaginário do sujeito. Também vimos como este descentramento permite ao sujeito a realização da passagem - necessária e obrigatória - do registro imagi¬nário à dimensão do símbolo. Pois bem, ao empregar a interpretação em terceira pessoa (recurso amplamente utilizado naquelas neuroses cuja organização superegóica tem tanta afinidade com as chamadas reações terapêuticas negativas) se pretende sublinhar este efeito.
É como se o recurso permitisse ao diálogo analítico sair do marco do imaginário (ao qual seu enquadre é tão permeável) do Eu-Tu para levá-Io à dimensão do terceiro. O paciente e o analista encontram-se então para dialogar sobre um terceiro termo: a história, o desejo, e a história do desejo do paciente.
Nas Psicoses de Ausência a postura permite não somente aludir a esse lugar (como é o caso nas neuroses) mas, além disto, inscre¬vê-Io de fato e de direito na própria relação. Assim, a terceira pessoa da interpretação funciona como um comentarista que, acompanhando a seqüência dos fatos, os fosse articulando na sua narração. Introduz, de fato, as articulações do significante.
O diálogo em terceira pessoa introduz um desdobramento na cena. Além de incluir o sistema terciário no discurso e além de per¬mitir o ingresso do símbolo como realidade plena, permite desdobrar a cena em dois tempos: o tempo do fato e do acontecimento por um lado, e o tempo do registro por outro, distinguindo-os e diferen¬ciando-os mas também criando os laços necessários, e as articulações para passar de uma cena a outra. Desta forma, fica articulado o fenômeno basal e estrutural da Psicose: o desdobramento do sinistro.
Orientando agora nosso interesse para o estudo de um lugar da interpretação nas Psicoses de Presença, temos que reconhecer que, também nestas, o diálogo deve se adequar a um estilo particular, embora esta particularidade nunca assuma a dimensão e magnitude que definem as Psicoses de Ausência. Aqui também é necessário levar em conta certas especificidades da estrutura dialógica de forma que seja possível - no curso da análise - a produção de sentido, evi¬tando que a sessão transite pela vaguidade da palavra vazia. A prin¬cípio porque esse risco está sempre implícito no que se refere às Psicoses, onde é permanente a tentação de cair na proposta de certas escolas (psicanalíticas - pelo menos é como se autodenominam) que se dedicam heróica e esmeradamente à tarefa de "introduzir o louco na realidade, fortalecendo seu Eu e a capacidade de discriminar o real que lhe é inerente".
Sabemos que há um certo paradoxo nesta proposta. O que os analistas chamam de "critério de realidade" não parece ser outra coisa senão o ideário imaginário em que se acha alienado o Eu do terapeuta. É claro que, por ser o Eu do analista, trata-se de um Eu forte. No entanto, não é um problema de força que aflige a psicose. É um problema de sentido. Há uma elisão na proposta que estamos comentando, e esta consiste no fato de que o conceito de força do significante ficou reduzido ao conceito de força, pura e simplesmente.
Não se trata de nomear um Universo que ficou fora da palavra e, portanto, deixou o sujeito do lado de fora, no campo da aluci¬nação. Pelo contrário, diferente do autismo, da catatonia e da esqui¬zofrenia em geral, o Psicótico de Presença parece estar em cheio no campo da palavra. O psicótico nomeia seu universo e, embora os nomes sejam bizarros na aparência, há uma certa lógica regendo a palavra delirante. E, precisamente por se tratar de uma palavra deli¬rante, esta obedece a um código suficientemente particular e especial, para que seja necessário ter alguns princípios claros. E estes princí¬pios fundamentais resumem-se no fato de que o universo dos nomes da Psicose de Presença carece do nome primordial: o Nome-do-Pai.
Inicialmente, a associação não se dá, exclusivamente, no campo da associação verbal. Não são apenas as produções verbais que ela considera mas também, e de maneira muito significativa, a modelagem em massas, cerâmicas e o desenho. Entendemos que se trata de um princípio intimamente ligado à necessidade de situar o diálogo (quando o interlocutor é a psicose) no campo do concreto.
No entanto, o importante do método utilizado por Pankow é, sobretudo, o fato de que as interpretações são adequadas às asso¬ciações que os pacientes são capazes de produzir tomando como base e ponto de partida suas próprias produções. Digamos, então, que a matéria-prima do trabalho analítico - como propõe Pankow – é a própria capacidade de se interrogar; interrogar-se a propósito e a respeito das próprias produções. Portanto, o papel que nas Psicoses de Ausência o tom afirmativo exerce, nas Psicoses de Presença é exercido pelas produções gráficas do paciente nas quais se procura nomear um certo mal-estar, um hiato, um estado do corpo.
Como vemos, não se trata de produzir um método no qual os grafismos sejam interpretáveis à maneira dos testes projetivos (cito por exemplo, o teste de Koch, o teste da árvore). Trata-se de convidar o paciente a interrogar seu delírio e fixá-lo num documento concreto para sua posterior interpretação no curso da sessão, tomando como ponto de apoio, seu discurso. Este discurso é o único que pode nos entregar a chave do código - sobre o qual dissemos que é subjetivo e particular - através de seus shifters. Nesta linha, a modela¬gem e o desenho são excedentes metáforas e metonímias de um re¬gistro inconsciente. Constituem excelentes documentos inconscientes.
Mas não são os únicos. Trabalhamos - inclusive com uma certa insistência - a idéia de que o isso seria uma instância com expressão discursiva e não um obscuro-pano-de-fundo-biológico. Demonstramos que essa expressão discursiva assemelha-se à estrutura dos mitos, mas que o mito não é a sua única possibilidade de documentação. O mito familiar, o discurso do desejo no seio de uma família, têm importantes referências documentadas: é o álbum fotográfico familiar.
Trabalhamos em alguns casos utilizando precisamente o álbum fotográfico familiar, solicitando que o paciente trouxesse - na ordem e seqüência desejada - uma série de fotos. É claro que o importante não é a foto nem a imagem que nela se reflete. Essa imagem cumpre a função de uma desculpa (é o caso do imaginário na sessão ana¬lítica). Essa imagem é o fator desencadeante de um discurso expli¬cativo por parte do paciente onde, ao nos introduzir na história que a foto condensa, desdobra no discurso seu desejo. O estudo da esco¬lha da quantidade, da seqüência, e da ordem em que são apresentadas estas fotos, assim como o estudo das relações que o paciente "ima¬gina ou diz conhecer" e que nelas aparecem, constituem nosso obje¬tivo. Trata-se - e não de outra coisa - sempre da associação livre.
Mas também haverá aqueles que notam que se trata de uma asso¬ciação livre bastante particular. Nem tanto. Afinal, sabemos que a associação "livre" é algo que não existe pois, forçosamente, toda associação é "escrava". Escrava de uma lógica, de uma história, de um desejo. Embora o homem se comporte como se fosse o criador e amo da linguagem, na verdade, esta é e continua sendo sua sobe¬rana. No "álbum fotográfico" trata-se de analisar os pontos de capi¬tonê, suportes do discurso do sujeito. Trata-se de indagar esses documentos que, arcaicos mas também presentes, são fecundas con¬densações de uma história familiar, perfeitas metáforas do desejo in¬quietante do familiar. Trata-se de lavrar o campo do sinistro. Trata-se de ver como esse desejo entra no discurso de nosso sujeito. Neste caminho encontramos - logo depois de começar a caminhada - os suportes materiais do delírio.
Uma primeira diferença salta à vista ao comparar a clínica nas Psicoses, de Ausência com a clínica nas Psicoses de Presença. Se, nas primeiras, o objetivo é o de conseguir pôr nomes ao universo, na segunda, é necessário descobrir o código em função do qual se desig¬nam nomes às coisas. A forma particular da abordagem clínica das psicoses relaciona-se com isto. Ao modelar, ao desenhar, ao comentar produções ou fotos, tenta-se indagar o código a partir do qual o psi¬cótico se situa na palavra.
Não devemos esquecer (ao chegarmos aqui) que as Psicoses de Presença caracterizam-se pela existência de uma inscrição do Outro e que, em todos os casos, o lugar do código está situado pre¬cisamente no Outro, na medida que ele é companheiro da linguagem. Não estamos, portanto, apelando para uma noção de consciência ou de inconsciente coletivo. A língua não existe numa pessoa sozinha, para isto é sempre necessário um terceiro, e é isto que se tenta ins¬crever na sessão. Isto quer dizer que na medida em que está situada na palavra, a interpretação se define pela presença de um Outro que o discurso psicótico inscreveu e registrou de maneira tão particular, a ponto de ter que restituí-lo no delírio.
Mas tampouco devemos esquecer que este Outro (com maiús¬cula) não coincide com o outro (com minúscula). A maiúscula e a minúscula não são o que realmente indica a diferença; importante mesmo é sua diferença estrutural pois, na medida em que definimos o Outro como a Estrutura, definimos o outro como o semelhante. O primeiro é determinante. O segundo, assim como nosso sujeito, é determinado. Isto quer dizer que, assim como por trás do Eu está a condição do sujeito, por trás do outro (semelhante) está a estrutura que o suporta. Assim como o sujeito está desdobrado de acordo com um algoritmo a'/S (Eu - condição do sujeito), também o outro o está de acordo com um algoritmo do tipo a/A (outro - Outro).
Para romper o circuito fechado e impossível da formação nar¬cisista, é necessário introduzir um sistema terciário. E é a interpre¬tação que deve criar a condição dessa possibilidade ao favorecer a relação a' - A (do Eu com o Outro), introduzindo o sujeito numa dimensão que lhe falta mas que em seu delírio requer.
É neste sentido que reivindicamos o uso da interpretação em terceira pessoa gramatical, como se tratasse de situar a discussão em torno de uma "outra" instância, a instância do Outro, o Nome¬do-Pai. Que a alteridade do discurso psicótico é suspeita. O "outro" do delírio é o "Eu do sujeito". A fórmula é de Freud e foi lançada num artigo de 1901, intitulado Sobre os sonhos, no qual nos diz que todos os personagens de um sonho são apenas formas imaginárias que o Eu do sonhante adota.
Clinica da Psicose
O próprio Freud desconfiava das possibilidades terapêuticas das psicoses ou, em todo caso, colocava em dúvida a analisabilidade das mesmas apoiando-se na sua incapacidade de transferência. Durante muito tempo a questão da analisabilidade ficou totalmente submetida a ação das possibilidades transferen¬ciais, como se os dois conceitos (de analisabilidade e de transferência) tivessem se fundido num só, a ponto de ficarem confundidos. No entanto, sabemos que não se trata de um único conceito. É verdade que há uma estreita ligação entre ambos, mas de maneira nenhuma ela autoriza a tomá-los como uma coisa só.
Freud descreve a função do diagnóstico, no texto "O início do tratamento", justamente a respeito da análise de psicóticos: "Sei que certos psiquiatras hesitam, menos do que eu, em fazer um diagnóstico diferencial, mas pude convencer-me de que também eles se enganam com freqüência. No entanto, é preciso notar que, para o psicanalista, o erro comporta mais conseqüências deploráveis do que para o dito psiquiatra clínico [...]. Num caso difícil em que o analista cometeu tal erro de ordem prática, provocando muitas despesas inúteis, ele põe em descrédito seu método de tratamento [...]. Quando o paciente não é acometido de histeria ou neurose obsessiva, mas de parafrenia, o médico se encontra na impossibilidade de sustentar sua promessa de cura, e eis porque ele tem todo o interesse em evitar um erro de diagnóstico".
Se o sujeito é psicótico, é importante que o analista o saiba, pois a condução da análise não poderá ter como referência o Nome-do-Pai e a castração. Daí a importância de se detectar a estrutura clínica do sujeito nas entrevistas preliminares.
Outra maneira de interpretar o texto freudiano é considerar que, para Freud, há uma contra-indicação da psicanálise para psicóticos. Em Lacan, há algumas indicações que apontam no mínimo para uma prudência, embora ele deixe a cargo de cada analista a resolução de aceitar ou não o psicótico em análise. "Acontece de aceitarmos pré-psi¬cóticos em análise, e sabemos no que isso vai dar - vai dar em psicótico”. Pois a análise, como lugar de tomada da palavra, pode desencadear uma psicose até então não declarada. Encontramos, entre¬tanto, indicações de outro tipo. “A paranóia, quero dizer a psicose, é para Freud absolutamente fundamental. A psicose é aquilo diante do que um analista não deve, em caso algum, recuar." Nesses casos, podemos interpretar que, diante de uma psicose já desencadeada, não haveria por que o analista não acolher a demanda de análise desse sujeito. Lacan dá outras indicações sobre a estrutura da transferência do psicótico que mostram, no mínimo, que sua posição não é a de contra-indicação.
Começaremos dizendo que a analisabilidade está diretamente re¬lacionada com a capacidade de deslocamento.
A - que a analisabilidade não é outra coisa além da capacidade de descentramento. Trata-se, em suma, de um movimento através do qual é possível a transição a partir de uma determinada posição de sujeito para outra, e é neste sentido que falamos de deslocamento e da capacidade de (se) deslocar.
B - evidente que para que um deslo¬camento entre na categoria de ser indicador de analisabilidade, será necessário que a consciência seja capaz de objetivar e registrar mate¬rialmente este processo.
Assim formulada, a analisabilidade também poderia ser definida como uma certa labilidade das formações imaginárias, ou seja, das representações que o sujeito faz de si mesmo. Esta labilidade permi¬tiria o diálogo fecundo, simultaneamente, seria possível para o sujeito a experiência de colocar em dúvida sua transferência. É que se o ego é a forma imaginária que a estrutura do sujeito assume no seio do discurso consciente, a transferência insiste na operação se¬gundo a qual tal discurso designa um certo lugar, ao outro.
Como vemos, analisabilidade e transferência se encontram mas não coincidem. Ao mesmo tempo, e de acordo com o que estamos vendo, a inanalisabilidade freqüentemente atribuída às psicoses deveria ser re¬vista. Inicialmente, porque convém distinguir quando uma psicose não é tratável, por constituir uma formação refratária a qualquer abordagem terapêutica e quando não é tratável, por consistir num discurso cuja compreensão escapa às capacidades de entendimento e tradução de nossa disciplina. É que, se definimos a analisabilidade como uma labilidade das formações imaginárias é também necessário acrescentar que isto não é uma peculiaridade exclusiva das neuroses. Pelo contrário, sabemos (ou não?) da existência de inúmeras estru¬turas obsessivas nas quais a permeabilidade é nula a ponto de inibir qualquer possibilidade de diálogo analítico. E o caso das reações tera¬pêuticas negativas, cuja gênese Freud atribui e situa no supereu.
Será necessário, então, lembrar que o supereu é uma macrome¬galia do Eu, uma espécie de mal formação, do tipo do gigantismo, no ego. Na reação terapêutica negativa, vemos a manifestação de uma espécie de incontrolável processo ínflacionário no Eu, coisa que as transferências neuróticas demonstram facilmente. A dialética do Amo e do Escravo encontra na neurose uma terra fértil e um epiceritro simbólico. A luta de Jacó com o Anjo, do sujeito com o outro, é o tema dominante nelas a ponto de impregnar a relação analítica.
Assim, freqüentemente percebemos certos discursos do paciente que procuram inibir a palavra do outro (isto é: a interpretação). Não se trata de outra coisa além da tentativa de realizar essa oposição. E quero esclarecer que estou utilizando o termo realizar no sentido mais forte da palavra, ou seja, querendo dizer que, ao realizar, tra¬ta-se de retrotrair a um certo real, à imagem em jogo. É claro que sabemos que isso acontece porque essa palavra é sempre (na visão do sujeito) um julgamento condenatório. Em suma, é um represen¬tante da castração. Para evitar esse confronto, o sujeito se situa na posição do Outro, do amo, "metendo-se, segundo um narcisismo bem conhecido, no lugar de seu interlocutor", nos diz Lacan: "O que o sujeito expressa antes de mais nada e desde o começo, quando fala, é esse registro que chamamos 'as resistências', e que só pode ser interpretado como uma realização hic et nunc, na situação e com o analista, da imagem ou das imagens, que são as da experiência pre¬coce. . . " .
É que, efetivamente, não é ao terapeuta nem à sua palavra que o sujeito se opõe, mas a uma certa imagem ou imago que o sujeito projetou e realizou nele e sobre ele. Deslindar esta imago e levantar esta realização é uma das tarefas da interpretação.
"Quero dizer que toda relação de dois está sempre mais ou menos marcada pelo estilo do imaginário e que, para que uma relação adquira valor simbólico é necessário que tenha a mediação de um terceiro personagem que realize o elemento transcendente, graças ao qual sua relação com o sujeito pode ser mantida a uma certa distância".
Podemos então chegar a uma importante conclusão relacionada com este problema da analisabilidade, dizendo que esta alude, na experiência clínica, à labilidade das formações imaginárias e, con¬comitantemente, à capacidade de incorporar uma dimensão terciária. Esta dimensão é a única opção para sair do impasse e do dilema que toda relação dual coloca.
De fato, concluiremos - junto com Lacan - que toda relação analisável, isto é, interpretável simbolicamente, sempre está inscrita numa relação de três. E neste ponto é necessário lembrar que este lugar terciário tem muita relação com a palavra. É claro que já vimos as dificuldades que a palavra coloca na abordagem das psicoses, ao estudar a questão do método clínico na loucura. O fato é que deve¬remos agora ter muito claro, para compreender cientificamente, até que ponto as psicoses são efetivamente passíveis de análise, para evi¬tar, neste aspecto, a mitologia amplamente enraizada do "caso sem remédio" .
Sem dúvida, no entanto, as diferenças estruturais que existem entre a Neurose e a Psicose, nos obrigam a rearticular o problema. Essas diferenças situam-se a nível do ego e do outro, ou melhor di¬zendo, a nível das formações imaginárias relacionadas com o sujeito e o outro. Também sabemos que essas diferenças são atribuíveis à peculiaridade da estrutura narcisista que rege as psicoses. Deste mo¬do, a inflação narcisista do ego não se expressa na formação de um Ideal-da-Eu, supereu (tal como acontece nas neuroses), mas num inchaço mais conhecido pelo nome de megalomania. Concomitante¬mente, o outro assume contornos expansivos narcisistas; que o fazem oscilar entre um valor de perseguidor (Outro da Castração) e um valor - digamos - de apoio (Outro da Demanda).
Como podemos ver, as alterações não chegam a incidir sobre a própria estrutura da relação a ponto de nos obrigar a alterar o conceito de analisabilidade embora, sob circunstâncias e condições par¬ticulares, a analisabilidade continue sendo uma capacidade de ins¬crever a nível terciário, uma capacidade de labilidade das formações duais e, portanto, uma capacidade de simbolizar.
As limitações mais importantes da sessão analítica não derivam da estrutura da própria psicose, mas de certas condições particulares. Assim como em "psicoterapia da histeria", Freud encontra razões que explicam a inaplicabilidade do método analítico em certas manifestações histéricas, sem por isto estabelecer que a histeria em si mesma é inanalisável, da mesma maneira encontramos nas psicoses certas circunstâncias que inibem taxativamente (ou, no melhor dos casos, limitam seriamente) a ação clínica.
Estas circunstâncias poderiam se resumir em três grandes itens:
1) Observamos quanto seio da crise psicótica (o chamado "sur¬to") qualquer tentativa de elaboração é inútil. A causa é simples: afinal, se o surto é uma solução psicótica para um problema simbó¬lico, questionar esta solução é uma tarefa que excede as possibilida¬des concretas do sujeito. Nesta situação é mais indicada, enquanto método, a criação de um contexto que (segundo a terminologia de Winnicott) chamaremos de "holding". Trata-se de criar um suporte para a manifestação do delírio, cuja análise e decifração ficariam pos¬tergados para um momento posterior.
2) Na organização psicótica já cronificada (de forma semelhante ao que acontece nas caracteriopatias ligadas à neurose, nas quais o sintoma ficou inscrito a nível do traço de caráter), também vemos uma séria e importante limitação do impulso analítico. É como se nestas circunstâncias o delírio tivesse obtido tanto reforço e adquirido tanta acomodação e adequação que acabou aparecendo como um dis¬curso inamovível.
3) Finalmente, as Psicoses de Presença apresentam duas situações típicas de "reação terapêutica negativa" e que são as limi¬tações mais importantes e decisivas de toda intervenção. Trata-se do curso depressivo crônico que certas melancolias adotam, e do curso irredutível delirante assumido por certas paranóias. Em tais circuns¬tâncias, o terapeuta não é para o melancólico mais do que a repre¬sentação viva - por assim dizer - de "outras" perdas, enquanto que para o paranóico não é mais do que um perseguidor indubitável. O valor fixo que nestes casos assume a figura do analista é um fator que seria inibidor do processo analítico.
Ao resenhar estas limitações estamos apenas definindo os obstáculos que costumam se apresentar no processo analítico de forma a poder articular um método capaz de abordá-Ios. Com isto pretendo dizer que nenhuma das três circunstâncias constitui situações nas quais o método analítico é contra-indicado. Trata-se, isto sim, de uma defi¬nição e compreensão dos rochedos nos quais o desejo terapêutico costuma naufragar.
Se analisássemos esses rochedos poderíamos muito bem situá-Ios no seio da crise psicótica ou em sua cronificação. Conhece-se o pressuposto de Kraepelin de que a repetição do surto é um fator de agra¬vamento e, ao mesmo tempo, uma condição que torna o delírio im¬permeável a qualquer forma de terapia. Pois bem, efetivamente, as repetições do surto conduzem a sucessivas reorganizações e reaco¬modaçães do delírio, forjando de maneira cada vez mais firme e sólida, a estrutura psicótica. Não obstante, convém estipular que a repetição do surto não depende de outra coisa senão da estrutura psicótica; é uma exigência da loucura; é um de seus efeitos de cons¬tância. Formulamos isto assim, já que existe um pressuposto am¬plamente difundido que sustenta que o surto é o resultado do encontro – certamente conflitivo - do psicótico com seu meio. Ao pensar assim, embora destaquemos uma importante verdade, omi¬timos uma importantíssima realidade. A realidade de uma exigência de repetição na estrutura louca.
E é justamente neste sentido estrutural que nos interessaria des¬tacar certas diferenças existentes - e também em relação à analisa¬bilidade - entre as Psicoses de Ausência e as Psicoses de Presença.
Diremos então que as Psicoses de Ausência se apresentam como mais permeáveis ao contato com o analista, o que não pode nem deve nos espantar se levarmos em conta o papel fundamental da Demanda nestas psicoses. Desta maneira, o psicótico de ausência é de fácil con¬tato. Só que é um contato que tem seus limites, visto que o objetivo é sempre a colocação em jogo de um pedido, uma queixa. Eis o calcanhar-de-aquiles do diálogo analítico, pois estas psicoses são mais impermeáveis à interpretação, o que tampouco pode nos espan¬tar se levarmos em conta que a compulsão à repetição opera nelas de forma a realizar no diálogo analítico a relação de Demanda.
Em oposição a isto, observamos que as Psicoses de Presença parecem ser de contato mais difícil que aqui, a figura do analista vem precedida de, um valor imaginário que costuma ser constante (representante de um luto, representante de uma perseguição), difi¬cultando assim o início do processo. Isto não impede que estas psi¬coses sejam mais acessíveis à interpretação, coisa que devemos atri¬buir ao fato de que, nelas, a posição do sujeito está arquitetada sobre a base da tentativa de resolver o enigma do outro. Não é por acaso que qualificamos a paranóia como sendo uma organização intelectual.
Pois bem, nesta organização a curiosidade exerce um papel de vital importância, o que coloca a questão 'em' conexão direta com nosso tema. E que, o que estamos chamando de ananalisabilidade, também poderíamos chamar de "curiosidade". O sujeito analisável é, antes de mais nada, um sujeito curioso. Uma curiosidade que não deixa de ter efeitos, visto que Freud a qualificou de Pulsão epis¬temógena desde 1905, ao tratar da questão da investigação sexual infantil em seu Três ensaios para uma teoria sexual. .
Assim pensada, a analisabilidade, não seria outra coisa além de um desejo. Concretamente: O desejo de saber. A este respeito di¬remos que se trata de uma particular integração e estruturação dos Representantes (a Sach-Vorstellung e a Wort-Vorstellung) da metapsi¬cologia freudiana. E claro que isto nos leva novamente à Função Materna por se tratar da instância na qual se dão estas inscrições; e é claro que isto nos faz voltar ao nosso ponto de partida situan¬do-nos frente à questão da definição do falo.
No entanto, não se trata mais de um simples retorno ao ponto de partida. O caminho percorrido nos permite transcender a situação e compreender a analisabilidade como um desejo mas também – e ao mesmo tempo - defini-lo em sua extensão. Defini-lo-emos então como o desejo de acolher na consciência (a chamada superfície psí¬quica) o desejo do sujeito. Em suma, consiste na capacidade de re¬ceber e acolher na consciência os significantes que a determinam.
Conseqüentemente, a analisabilidade não depende da estrutura - somente - mas, e fundamentalmente, do projeto do sujeito. Ao mencionar o projeto; convém esclarecer que estamos nos referindo ao Ideal. E, ainda que se diga que nas Psicoses a lesão ocorrida a nível da estrutura simbólica incide na organização do Ideal, não deveríamos omitir sua existência. E que, enquanto negação ou repúdio, a Verwertung (foraclusão) supõe a exclusão do ideal fálico mas isto se dá ao preço de uma repetição. E necessário que a exclusão se repita para manter a estrutura, da forma como sugere o princípio de constância, E a repetição (ainda que seja de uma negação fun¬damental) já supõe um projeto. E nesse projeto que se perfila nosso objeto de estudo e de trabalho. Um perfil fantasmagórico; é a projeção das sombras do falo no sujeito.
Em relação à cura, como efeito terapêutico esperado numa análise, concor¬damos com Lacan quando diz que um sujeito, enquanto tal, é incurável: ele não pode ser curado de seu inconsciente. Por mais análise que se faça, mesmo que se atravesse a fantasia e se chegue ao final, o inconsciente não vai deixar de se manifestar - o sujeito é barrado ($), como testemunha a persistência dos lapsos, sonhos e chistes nos sujeitos já analisados.
Contudo, qual é a promessa de cura que o psicanalista não pode sustentar no caso da psicose? Só há uma resposta essa pergunta: o analista não pode prometer inserir o psicótico na norma fálica; não pode fazê-Io "normal", inseri-Io em Ia norme mâle. A norma é regida pelo Édipo e pelo complexo de castração, cujo produto é o significante fálico, primado para ambos os sexos. A foraclusão do Nome-do-Pai (NP) exclui o sujeito da norma fálica, riscando qualquer esperança do analista de fazê-Io bascular para o lado da neurose. Não se pode, portanto, tornar neurótico um psicótico. Eis o que se pode deduzir da advertência freudiana, confirmada pela continuidade que Lacan deu ao seu ensino, bem como pela própria experiência analítica.
Caso Clínico
Serão apresentados alguns trechos dos relatórios clínicos do paciente F. J. L.S. de 12 anos, do sexo masculino. Partindo das teorias apresentadas acima serão relacionadas algumas frases ou desenhos que ilustrem o que foi dito pelo autor.
A megalomania e o narcisismo podem ser notados nos relatos, quando: “ F. diz que quer construir um super carro que voa para que todos o invejem e assim possa conseguir mulheres lindas e loiras” . O autor diz que: “Sem dúvida, no entanto, as diferenças estruturais que existem entre a Neurose e a Psicose, nos obrigam a rearticular o problema. Essas diferenças situam-se a nível do ego e do outro, ou melhor di¬zendo, a nível das formações imaginárias relacionadas com o sujeito e o outro. Também sabemos que essas diferenças são atribuíveis à peculiaridade da estrutura narcisista que rege as psicoses. Deste mo¬do, a inflação narcisista do ego não se expressa na formação de um Ideal-da-Eu, supereu (tal como acontece nas neuroses), mas num inchaço mais conhecido pelo nome de megalomania.”
Em relação ao mal estar sofrido pela psicose que o autor afirma, F. desenhou várias vezes um submarino que ele dizia ser do mal ( ver em anexo os desenhos: 1, 2 e 3 ). E sobre isto é citado também que:“... é exercido pelas produções gráficas do paciente nas quais se procura nomear um certo mal-estar, um hiato, um estado do corpo.”
Na psicose, o que é negado no simbólico retorna no real sob a forma de automatismo mental, cuja expressão mais evidente é a alucinação. Como o retorno é no real, ou seja, fora do simbólico, emprega-se o neologismo "fora¬clusão", utilizado no âmbito jurídico para se referir a um processo prescrito, ou seja, aquele de que não se pode mais falar porque legalmente não mais existe. O termo de foraclusão como forma de negação indica por si mesmo esse local de retorno, a "inclusão" fora do simbólico. Aqui pode ser o desenho 4 uma boa ilustração, pois foi narrado pelo paciente da seguinte forma: “F. desenha uma história, começa com uma garagem, um carro com um homem e uma mulher grávida dentro. Na frente da garagem tem um sinaleiro, posteriormente ele coloca um caminhão. Ele coloca o carro pra fora da garagem, apaga o caminhão. Diz que o carro vai para o hospital. Põe o carro do lado do hospital, desenha a sala do médico com a mulher deitada e o marido do lado. E disse que já havia terminado o desenho. “ Ou seja, o bebê não nasce.
Conclusão
Tendo o propósito de acrescentar mais estudos sobre questões como a psicose e sua clínica, o projeto contribuiu com sua evolução e proporciona ao posterior estagiário uma contribuição teórica.
Os aspecto apontados neste trabalho referiram-se a estrutura da psicose, onde as contribuições teóricas de Freud e Lacan foram fundamentais para uma leitura desta estrutura clinica e a conduta do psicólogo.
A psicose se caracteriza pela “foraclusão”, ou seja, diferente da neurose não ocorre a admissão do Édipo no simbólico, a ela falta o Nome do Pai. Sem significante o real se concretiza, o sujeito não mais vivência sua existência como na neurose. Assim sua clínica passa a ser diferente das outra estruturas, a conduta ganha novas posturas e novas formas de interpretações.
O psicótico fica fora não só do Édipo, mais de instituições fundamentais para sua vida em sociedade, como a escola. A psicanálise, em particular a teoria de Lacan, contribui muito ao tratamento da psicose, porem deve ser fundamental este ser acompanhado pôr uma equipe multidiciplinar. É importante que outros aspectos sejam acompanhados para que haja a inclusão do sujeito na sociedade também.
AUTOR: JOÃO RENATO C. PAGNANO (trabalho de faculdade )
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